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Editorial (35)
- Curadoria, edição e espaços autônomos no diálogo Recife–Portugal
Em novembro de 2025 viajamos de Recife, onde a Propágulo é sediada, para Lisboa, Coimbra e Porto em um intercâmbio fomentado pela Política Nacional Aldir Blanc que foi dos dias 1º a 15 . Possuíamos dois objetivos: lançar nosso último livro, A gênese da curadoria no Brasil , na capital portuguesa, onde atualmente vive sua autora, Cristiana Tejo, e o segundo, acompanhar a produção da artista Tatiana Móes, no Porto. Para além dos vínculos conosco, outro aspecto em comum foi fundamental para a elaboração desse trânsito: tanto Cristiana quanto Tatiana gerenciam espaços autônomos de arte. A primeira pesquisa a partir do NowHere Lisboa e, a segunda, a partir do AL859 Art Space . Lisboa: espaço, comunidade e circulação editorial Largo da Sé, novembro de 2025 Nossa chegada a Lisboa foi marcada pelo encontro com a NowHere, associação cultural gerida por Cristiana Tejo, em um momento especialmente significativo: a fase final da reforma de sua nova sede. Antes mesmo da inauguração oficial, pudemos visitar o espaço, compreender sua escala — ampla, sobretudo no tecido urbano de Lisboa — e acompanhar de perto os esforços de manutenção de uma comunidade. A criação de redes se mostrou o aspecto central da prática da NowHere. Esse compromisso se refletiu na forte presença de artistas, pesquisadores e públicos brasileiros ao longo das atividades, evidenciando a relevância do espaço como ponto de convergência entre experiências migrantes, trajetórias curatoriais e práticas artísticas. No dia 7 de novembro, o intercâmbio se expandiu para além de Lisboa com o primeiro lançamento do livro no Laboratório do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, onde fomos recebidos por Ana Rito, coordenadora do Mestrado em Estudos Curatoriais. O encontro reforçou o diálogo entre pesquisa, curadoria e edição, dimensões que atravessam tanto a trajetória da autora quanto a atuação da Propágulo. Lançamento de A gênese da curadoria no Brasil no Colégio das Artes, Universidade de Coimbra A gênese da curadoria no Brasil investiga como se consolidou o campo da curadoria de arte no país a partir de meados do século XX, com foco no período de 1940 a 1981. O livro analisa a emergência da prática curatorial no Brasil, mostrando como essa função foi se configurando ao longo das décadas. A obra destaca a atuação de figuras centrais como Aracy Amaral, Frederico Morais e Walter Zanini, pioneiras para a consolidação da curadoria no contexto brasileiro. Com ele, buscamos preencher uma lacuna editorial e historiográfica no campo das artes visuais brasileiras combinando perspectiva histórica, análise sociológica e estudo de trajetórias pessoais e institucionais para compreender como a curadoria tornou-se um campo profissional e intelectual no Brasil. Já no dia 8 de novembro, o segundo lançamento do livro ocorreu em Lisboa, durante a inauguração da nova sede da NowHere, integrando a programação da Lisbon Art Weekend, que conecta a cena artística contemporânea de Lisboa, reunindo galerias, espaços geridos por artistas, coleções particulares, museus e projetos de arte pública. Ao lado de Cristiana Tejo, esteve a artista luso-brasileira Irene Buarque, radicada em Portugal desde 1973, e que dividiu com o público sua experiência trabalhando com Walter Zanini, bem como sua vivência enquanto artista durante a ditadura brasileira. Lançamento de A gênese da curadoria no Brasil na NowHere, Lisboa Porto: acompanhamento curatorial e aprofundamento das trocas Vista do Porto No Porto, o intercâmbio se concentrou em torno do AL859 Art Space, associação cultural, galeria e ateliê coletivo gerido por Tatiana Móes , cuja trajetória já se entrelaça com a da Propágulo — tendo sido capa da revista Propágulo 8.1 e participante da exposição A Beleza da Lagoa É Sempre Alguém (2021). Ateliê de Tatiana Móes no AL859 Art Space , Porto Pudemos acompanhar a artista debruçada sobre uma série de desenhos dedicados a mães imigrantes, realidade da qual partilha, refletindo sobre deslocamento, pertencimento e memória a partir de outras mulheres de sua rede. Nos dias 12 e 13 de novembro, o livro de Cristiana Tejo foi lançado no Porto em dois contextos complementares: primeiro, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, em diálogo com a disciplina de museologia e estudos curatoriais da professora Elisa Noronha e, em seguida, no próprio Espaço AL859, em um encontro mais íntimo, na presença de Tatiana Móes e sua rede de artistas e parceiros. Lançamento de A gênese da curadoria no Brasil na Faculdade de Belas Artes da Univeridade do Porto Redes, acolhimento e desdobramentos Com Tatiana Móes, Luana Andrade e colegas no AL859 Art Space Um dos aspectos marcantes do intercâmbio foi o acolhimento encontrado por onde passamos. A sensação constante foi a de estarmos plantando sementes a partir de uma rede ampliada de parceiros instalados em Portugal. Como resultado direto do projeto, para além de voltarmos sem exemplares do nosso novo livro para o Brasil, amplioamos significativamente nossa rede de circulação editorial em Portugal. Atualmente, nossos livros podem ser encontrados na Livraria Belas Artes do Porto, na Térmita (Porto), na Matéria Prima (Porto) e na STET – livros & fotografias (Lisboa). Térmita (Porto) Livraria particularmente interessada em fotografia, poesia, prosa, ensaio e todo o tipo de publicações inusuais. A Térmita é movida por uma grande crença no livro como objeto materializado. Abertos de terça a sábado, das 12h às 20h, no Largo de Mompilher, 5. Matéria Prima (Porto) Tem o interesse pelos suportes analógicos como fio condutor de sua curadoria. Dedica-se à venda de discos, livros, revistas e zines. Opera com a mais expandida e inclusiva definição de cultura, esforçando-se para tornar acessíveis a um público mais amplo, os artistas, músicos e editores mais inovadores, experimentais e aventureiros. Abertos de segunda a sábado das 11h às 19h, na Rua Miguel Bombarda, 232. STET – livros & fotografias (Lisboa) Livraria especializada em livros e fotografias, edições de autor, livros de artista, fotolivros e teoria da imagem. Promove a circulação de publicações de artistas nacionais e internacionais. Abertos de terça a sexta, das 15:30h às 19h na Rua Actor António Cardoso, 12A, perto do Mercado Arroios. Ao nos deslocarmos entre Recife, Lisboa, Coimbra e Porto, buscamos compreender modos de fazer, estratégias de sustentação e formas de criar comunidade em contextos distintos, porém atravessados por histórias e desafios comuns. O intercâmbio possibilitou o encontro com outros espaços e agentes relevantes, como o Sismógrafo, no Porto, e o reencontro com artistas e pesquisadoras parceiras, entre elas Luana Andrade, artista e autora do livro Cento e poucas notas introdutórias à Artista-turista . Os aprendizados adquiridos ao longo desses dias reverberam diretamente em nós, fortalecendo-nos com referenciais e laços valiosos. Guilherme Moraes Heitor Moreira Rodrigo Souza Leão
- RINHA: A POÉTICA DE ARIVANIO
Disputa na arena de vida ou de morte A sorte lançada no brilho do esporão No centro da rinha ele ganha e explode Numa raiva danada ele come uma galinha Ê Ê paracatum paracumbá (trecho de Os galos , canção de Cátia de França, 1979) Por muito tempo, Quixelô foi um próspero polo têxtil do sertão do Ceará, mas na década de 80 o bicudo-do-algodoeiro vitimou a lavoura. Houve quem avistasse aviões monomotor norte-americanos largando os besouros que, com suas mandíbulas afiadas, perfuraram os botões dos pés de algodão. Perdida a plantação, a cidade esteve concentrada na produção de arroz, porém foi sendo cada vez mais difícil para a agricultura familiar competir com grandes produtores. Hoje boa parte dos empregos do município com pouco mais de 20.000 habitantes são cargos públicos oferecidos pela prefeitura. Esta foi a Quixelô que conheci através do depoimento de Arivanio. Nesses anos todos, seus avós, caboclos agricultores e pescadores, faziam de tudo: bordavam, costuravam e produziam seus utensílios em cerâmica. O pai de seu pai era tio do pai de sua mãe, o que faz de Arivanio, além de neto, sobrinho-neto de um e primo em segundo grau do outro. Nascido em 1993, ele era um menino diferente. Seu avô dizia que, mesmo calado, Arivanio errava. O garoto franzino e tagarela terminou o Ensino Médio precocemente. Aos 16 anos, passou a perseguir o sonho de ser artista. “Naquela época, eu ainda não tinha acesso à internet como hoje, então ia à biblioteca municipal pesquisar.” Lia manuais de arte e biografias de pintores como Pablo Picasso e Heitor dos Prazeres. Em 2012, conheceu o primeiro artista em carne e osso: Ruy Relbquy ¹ . “Não existe o Arivanio sem o Ruy”, afirma emocionado. “A gente se telefonava uma vez por semana ou a cada 15 dias. A primeira tela que eu vi na vida foi dele. Eu não sabia que era possível fazer aquilo. Hoje parece absurdo, mas na época não tinha referência, só via nas fotos dos livros.” A pintura de Arivanio foi agradando cada vez mais pessoas em Quixelô. “Então mudei.”, ele conta, ao mostrar a parede de sua casa, encavalitada de quadros seus desde que começou sua jornada até os dias de hoje. Um dos trabalhos mais antigos pregado na alvenaria é de uma mulher branca, de vestido claro, entre dois girassóis agigantados. “Eu fazia esse tipo de trabalho para vender e comprar o gás e a feira. Mas aí acendeu uma lanterninha: se tanta gente estava gostando, deveria ser decorativo demais. Então fui para outro tipo de produção”. Em 2016 Arivanio fez parte da 13ª Bienal Naïfs do Brasil, Todo mundo é, exceto quem não é , no Sesc Piracicaba (SP), com curadoria de Clarissa Diniz, Claudinei Roberto da Silva e Sandra Leibovic. A partir de então uma coisa foi puxando a outra. Um ano depois, compôs a 1º BÏNaïf - Bienal Internacional de Arte Naïf, Totem Cor-Ação , no Museu Municipal de Socorro (SP). Em 2020, esteve na 15ª Bienal Naïfs do Brasil, Ideias para adiar o fim da arte , curada por Renata Felinto e Ana Velar . Apesar desse pontapé, ele reconhece o naïf como uma tipologia ambígua. “Não é justo negar a identidade de alguém que tá dizendo ‘eu existo’”, disse-lhe uma vez Clarissa Diniz. Desse ponto ele também é partidário. Por outro lado, há um empenho em fazer com que sua pesquisa seja compreendida dentro do panorama da arte brasileira para além do rótulo. Nesse sentido, uma guinada importante foi estar entre os selecionados do 7º Prêmio EDP nas Artes do Instituto Tomie Ohtake ² e, no ano de 2025, ser finalista do Prêmio Pipa. Cachorra parindo IV , 2022, acrílica sobre tela, 54,5 x 71 cm Babilônia , 2022, Acrílica sobre Banner, 78,5x76 cm Arivanio é interessado pela figuração. Em geral, os fundos dos seus quadros são preenchidos por poucas cores e elementos: dois planos estabelecem o horizonte, normalmente em vermelho. Num deles, flutua a lua, personagem assíduo a acompanhar sua caminhada inusual. Quando não há delimitação entre céu e terra, as figuras ou são dispostas como se pisassem nas extremidades da tela ou estão a levantar voo. Linhas negras demarcam-nas e suas volumetrias não interessam. Vemos cadelas, tantas vezes alvas, a perambular por noites sanguíneas. Elas são como espelhos de nós, vibrando entre identidade e instinto. As cachorras parem, uivam, mijam, mamam, copulam, ladram, sendo tradução do repertório visual cotidiano e fantasioso do artista. Cotidiano pois deriva de cenas rotineiras de Quixelô ou Juazeiro do Norte, onde hoje mora. Fantasioso por ganhar uma contundência gráfica digna de maravilhas ou de tragédias. O teor do mundo aos olhos de Arivanio é feérico, contrastado, por vezes dualista, mas nunca, desde que deixou de produzir girassóis, nunca brando. O léxico de seu trabalho também é formado por galos, urubus, serpentes e carcaças. De quando em quando, surgem inserções inesperadas. Estas, como palavras preciosas demais para se usar a todo momento, são empregadas com parcimônia por Arivanio. Armagedon o grande conflito , 2023, acrílica sobre tela, 80 x 60 cm Em trabalhos como Babilônia (2022) e Cachorra parindo IV (2022) vê-se como essas conjugações acontecem através dos seres sobre a paisagem de escuridão carmim. O artista irmana o fantástico ao apocalíptico nas suas cenas viscerais como o sangue e o leite que pingam dessas criaturas. Já em Ouro x bronze (2023), Armagedon o grande conflito (2023), A serpente antes do castigo voava (2023) testemunhamos o embate entre galos ³ . A rinha ganha ares de batalha do bem contra o mal e as criaturas de longas plumas tornam-se fênixes a voar pelo céu. Essa força antitética, em que os animais figuram como arcanjos ou anjos caídos num encontro mágico, também está presente no laço copulatório de Coito ou cópula (2021), em que vemos um cão e uma cadela atados um ao outro. Ouro x bronze (2023) e Coito ou cópula (2021) Quem protege as travestis no Brasil? Retrato de Yná , 2022 acrílica sobre tela 148 x 126 cm Em todos esses casos, o artista transforma o corriqueiro em colossal. Noutros, suas pinturas propõem um absurdismo alimentado por esta mesma energia. Aí entram em ação as tais das palavras guardadas para dizeres específicos. Em Beyoncé (2022) vemos a diva pop montada em um alazão espectral abaixo do costumeiro céu rubro. Aos pés do corcel, corre um riacho azul sobre o chão negro. Na base da pintura, consta gravado “Beyoncé declara a 2ª independência do Brasil”. Segundo Arivanio, foi “uma forma de dizer que o Brasil precisaria de novos ídolos. Beyoncé serviu para apontar para o fato de que mais uma vez precisaríamos de uma pessoa externa para nos validar. Apesar de ser uma mulher negra, artista, ela ainda seria uma mulher norte-americana a declarar nossa segunda independência”. Em Quem protege as travestis no Brasil? Retrato de Yná (2022), o artista parte de seu interesse sobre figuras híbridas “que percorrem desde mitologias como a grega, a romana e a egípcia, até paralelos que encontrei na cultura do meu povo, os Kixelô Kariris, com entidades que são metade humanas, metade bicho”. A obra foi uma homenagem a uma amiga artista, Yná Kabe Rodríguez que correlaciona travestis a onças, ambas existindo apesar da constante ameaça de extinção. Beyoncé , 2022 acrílica sobre tela 82,5 x 89 cm O trabalho de Arivanio está aberto a influências de todos os lados. É autobiográfico, irônico, político e brota do cotidiano prismado por seus olhos. Este, não é anacrônico, não fala de um pedaço imemorial do Brasil. Muito pelo contrário, é a nós coetâneo e por isso mescla tradições e cultura de massa, história da arte e sonho, bicho e gente, bíblico e popular. São matérias do seu mundo e ele, como artista, deve precisamente conjugá-lo. Muito antes do arroz, da praga do bicudo-do-algodoeiro ou mesmo das próprias lavouras de algodão, as terras em que hoje fica Quixelô eram habitadas por indígenas. Na realidade, é deles que vem o nome da cidade. Desinformados dirão que os Kixelô, duramente perseguidos pelos colonizadores, foram exterminados, mas muitos sabem: a memória de seus antepassados segue viva. Ela está inscrita nos rostos e costumes de muitos dos provenientes da região. Alguns, como os avós de Arivanio, preferem denominar-se caboclos, como se outra palavra fosse precipitada demais, antiga demais, ousada demais. Outros, como Arivanio, que começou a assinar Puluca Kixelô Kariri após seu primeiro nome, estão a retomá-la. Indígena em contexto urbano no sertão cearense, ele cresceu entre santeria, protestantismo, espiritismo e catolicismo. Mas, de uma forma ou de outra, ritos e crendices deram seus jeitos de escorrer pelas frestas dos costumes impostos por meio de sincretismos possíveis. Híbrido, o trabalho de Arivanio apresenta uma paisagem irresolvível. Incômoda para tantos olhos, coisa que girassol nenhum seria. ¹ Ruy Relbquy (CE - 1988) é graduado em História e pós-graduado em História da Arte. Vive e produz na comunidade rural de Riacho do Meio, em Quixelô, Ceará. Sua obra transita entre pintura, performance e fotografia, dialogando com temas como território, ancestralidade, deficiência, identidade indígena e LGBTQIA+. Em 2021, passou a se afirmar como indígena não aldeado após participar do grupo de retomada Kixelô Kariri. Foi selecionado para a 76ª edição do Salão de Abril. Coordena a Casa Atelier, onde realiza oficinas, saraus e ações culturais com a comunidade. ² O Instituto Tomie Ohtake e a EDP, com o apoio do Instituto EDP, apresentam a exposição dos 10 artistas selecionados ao 7º Prêmio EDP nas Artes, dedicado a jovens artistas de todo o Brasil, nascidos ou residentes no país há pelo menos dois anos. Foram selecionados por um júri composto pelos artistas Arthur Chaves, Dora Longo Bahia e Elilson e pelos curadores Amanda Carneiro e Theo Monteiro. ³ Aqui, Arivanio reconhece a contribuição da tradição cristã em sua iconografia. Na simbologia católica, o galo e seu canto ao amanhecer representam a vitória da luz contra a escuridão. Também são inúmeros os artistas que representaram galos e, mais precisamente, rinhas. Chico da Silva, Aldemir Martins e Chagall, citados por Arivanio, são exemplos.
- ARACY AMARAL: POLIVALÊNCIA E PIONEIRISMO
No livro A Gênese da Curadoria no Brasil , Cristiana Tejo identifica três perfis que moldaram este campo. Entre eles, Aracy Amaral emerge como a personificação da curadora polivalente: uma figura que transita entre o jornalismo, a pesquisa acadêmica e a gestão de museus, conferindo um inédito caráter científico e histórico à organização de mostras de arte no país. Aracy Amaral como monitora da II Bienal, apresenta obra à Embaixatriz da Índia, 1953. Autoria desconhecida - Fundação Bienal de São Paulo / Arquivo Histórico Wanda Svevo. Amaral construiu uma trajetória marcada pelo rigor acadêmico. Iniciou sua vida profissional no jornalismo e como monitora na II Bienal de São Paulo, sendo na academia onde consolidou sua autoridade. Ela foi a responsável por defender o primeiro doutorado em Artes na USP, em 1971, estabelecendo um novo padrão para o campo: a exposição como resultado de uma tese. Esse método ficou evidente na histórica retrospectiva Tarsila – 50 anos de Pintura (1969). Numa época em que Tarsila do Amaral estava pouco representada nos acervos públicos, Aracy realizou um levantamento exaustivo e técnico para recolocá-la como protagonista do Modernismo. Ela defendia que era hora de o Brasil abandonar a improvisação e adotar um nível profissional na divulgação artística, baseando-se em pesquisa documental e critérios museológicos sólidos. Vistas da exposição Tarsila – 50 anos de pintura , no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Foto: Marco Antonio - Acervo Histórico do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Contudo, o perfil de Aracy não se restringe ao olhar revisionista, demonstrando sensibilidade para o contemporâneo e suas novas tecnologias desde a emblemática EXPOPROJEÇÃO 73. A mostra é considerada um marco na história da arte e da curadoria no Brasil por ter sido a iniciativa pioneira por reunir e apresentar ao público, de forma panorâmica, as experiências de artistas plásticos brasileiros com novos meios tecnológicos, especificamente audiovisuais, Super 8, 16mm e som. Amaral atuou como uma identificadora de sintomas, captando um fenômeno emergente e tornando-o visível no contexto nacional. Foi a primeira vez que se reuniu esse tipo de produção que, até então, era dispersa. A mostra reuniu 42 artistas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, conectando realizadores e grupos que, muitas vezes, sequer se conheciam. O evento misturou nomes já consagrados da vanguarda (como Hélio Oiticica, Lygia Pape, Antonio Dias, Cildo Meireles e Artur Barrio) com artistas em fase de consagração e até críticos de arte atuando como artistas, como foi o caso de Frederico Morais apresentando seus audiovisuais. Aracy validou essas produções como formas vigorosas de expressão fora do sistema tradicional de mercado. A realização do evento contou ainda com o apoio do GRIFE (Grupo de Realizadores Independentes de Filmes Experimentais), que acolheu a mostra em seu espaço, demonstrando a capacidade de Aracy de dialogar com grupos independentes. Além disso, Amaral foi uma das principais vozes a voltar os olhos para a América Latina, atuando ativamente na integração de críticos e na criação de redes de museus no continente. Seja na direção da Pinacoteca do Estado, na cátedra da USP ou nas páginas de jornais, sua atuação foi decisiva para profissionalizar o circuito artístico nacional. Contudo, Cristiana Tejo aponta que a misoginia na sua época manifestava-se tanto de forma estrutural, apagando a presença feminina da história oficial, quanto através de ataques diretos na imprensa e estereótipos de gênero que desqualificavam a atuação intelectual de mulheres. Na I Bienal, Aracy Amaral entrevista o diretor do MoMa, René d’Harnoncourt para Jornal da faculdade, 1951. Autoria desconhecida - Acervo Aracy Amaral. O livro Tejo dedica uma análise específica a esse tema, destacando pontos como o apagamento histórico de figuras como Maria Eugênia Franco ¹ que, embora tenha sido cofundadora da Seção de Arte na Biblioteca Municipal de São Paulo e signatária da fundação do Centro Brasileiro de Crítica de Arte, possui pouquíssima informação disponível sobre sua atuação, dado contrastando com a visibilidade de seus pares homens. Além disso, enquanto os curadores homens (Frederico Morais e Walter Zanini, seus pares tratados no livro) enfrentavam críticas no terreno das ideias, na imprensa Aracy Amaral sofria ataques pessoais, criticando suas roupas, voz e atitude. Outro caso trazido pela autora se passa em 1965, numa entrevista com a curadora Ceres Franco ² para o Jornal do Brasil. A matéria elogiava mulheres competentes dizendo que elas tinham “temperamento de homem” ou faziam “trabalho de homem”, como se a competência fosse um atributo masculino. Ao revisitarmos a formação da curadoria no Brasil, torna-se evidente que sua consolidação não se deu apenas pela criação de instituições, mas pela ação de figuras capazes de redefinir, a partir de dentro e de fora delas, o lugar do curador em um país atravessado por tensões políticas, econômicas e culturais. Nesse cenário, Aracy Amaral ocupa uma posição inaugural. ¹ Maria Eugênia Franco (São Paulo, SP 1915–1999) Foi escritora, bibliotecária, curadora e crítica de arte. Iniciou sua carreira como crítica de arte no final dos anos 1930, publicando textos no jornal O Estado de São Paulo (1939) e na Folha da Manhã (1940), onde também organizava suplementos literários. Em 1943, foi a única mulher convidada para o inquérito Plataforma da Nova Geração, publicado pelo O Estado de São Paulo, que reuniu jovens escritores e críticos, como Antonio Candido e Mário Schenberg. Em 1946, recebeu bolsa do Governo da França para cursar Estética na Sorbonne e História da Arte na École du Musée du Louvre. Em São Paulo, dirigiu a Seção de Arte da Biblioteca Pública Municipal (1945–1975), promovendo uma difusão didática da arte moderna por meio de exposições que associavam obras originais, reproduções, livros de arte e documentação. Em 1975, criou e dirigiu o Departamento de Informação e Documentação Artísticas (IDART), permanecendo como sua gestora até 1979. Foi júri da II JAC do MAC USP (1968) e da seleção de artes plásticas da III Bienal de São Paulo (1955) – e da comissão técnica de artes plásticas da X Bienal de São Paulo (1969). Vice-presidente da ABCA (1967–1969). Recebeu o prêmio de melhor crítica sobre a II Bienal de Arte, concedido pelo Jornal de Letras (1954). Sua atuação, pouco estudada, foi essencial para a consolidação da crítica de arte e da gestão cultural em São Paulo, deixando legado como crítica das instituições de arte, curadora e gestora visionária. ² Ceres Franco (Bagé, RS, 1926–2021) Foi crítica de arte, curadora independente e galerista, radicada em Paris desde os anos 1950. Ao longo de sua trajetória, defendeu uma concepção aberta e inclusiva da arte. Sua coleção e curadoria buscavam ampliar o cânone artístico, incorporando artistas de todas as regiões do mundo, com destaque para o Norte da África, América do Sul e Sudeste Asiático. Defendia a circulação universal, “sem fronteiras”, das obras de arte, e a valorização da diversidade cultural no campo artístico. Organizou a mostra Nova Figuração – Escola de Paris (1964) na Galeria Relevo e, com Jean Boghici, a Opinião 65 (1965) no MAM Rio. Abriu sua própria galeria, a L’Oeil de Boeuf, em Paris (1972).





