WALTER ZANINI: RIGOR E EXPERIMENTALISMO
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No livro A Gênese da Curadoria no Brasil, Cristiana Tejo define Walter Zanini como o arquétipo do curador institucional. Se Frederico Morais representava a guerrilha externa e independente, e Aracy Amaral trazia um modelo polivalente e rigoroso de pesquisa, Zanini personificou a figura do gestor que, de dentro da estrutura museológica, implodiu barreiras e profissionalizou o sistema, equilibrando o rigor acadêmico com a mais radical abertura ao experimentalismo.

Zanini construiu uma sólida base acadêmica na Europa. Entre 1954 e 1961, estudou História da Arte e Museologia em Paris, Roma e Londres, acumulando uma erudição que lhe permitiu assumir, em 1963, a direção do recém-criado Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP). Foi sob sua gestão, que durou até 1978, que o museu se tornou um laboratório vivo.

A atuação de Zanini foi marcada pela transformação das mostras "Jovem Arte Contemporânea" (as JACs), que ele mesmo havia criado, com o objetivo de valorizar trabalhos que emergiam no panorama. Em um gesto de ousadia curatorial sem precedentes, na edição de 1972, ele aboliu o júri de seleção — a ferramenta máxima de poder legitimador. O espaço do museu foi loteado e distribuído por sorteio entre os inscritos, colocando lado a lado artistas consagrados e estudantes, deslocando a ênfase do objeto acabado para o processo criativo.
Zanini transformou a instituição em um espaço de liberdade, abrigando a videoarte (adquiriu o primeiro equipamento de vídeo para um museu brasileiro em 1974) e as poéticas conceituais que o mercado e muitos salões tradicionais rejeitavam.
Sua trajetória culminou na histórica XVI Bienal de São Paulo, em 1981. Foi nesta edição que, pela primeira vez na história do evento, o diretor artístico recebeu oficialmente o título de “curador”. Zanini reestruturou radicalmente a mostra: extinguiu as representações nacionais, que dividiam a arte por países, e passou a agrupar as obras por analogias de linguagem. Ele trouxe para o pavilhão do Ibirapuera a arte correio e outras práticas marginais, institucionalizando manifestações que, até então, circulavam fora do sistema.

Além de sua prática curatorial, Zanini foi fundamental na organização da classe, fundando a Associação de Museus de Arte do Brasil e o Comitê Brasileiro de História da Arte. Sua capacidade de navegar entre a conservação do patrimônio e a ruptura contemporânea fez dele uma figura central para entender como a curadoria deixou de ser uma função administrativa para se tornar uma autoria intelectual. A partir dessa inflexão proposta por Zanini, torna-se possível compreender como outras figuras centrais — como Aracy Amaral e Frederico Morais — construíram trajetórias que, embora distintas, dialogam com essa expansão. Aracy, com seu rigor intelectual, reforçou a ideia de museu como campo crítico, sustentado por pesquisas sólidas. Já Morais operou desde a crítica e da ação direta, defendendo uma arte urgente.
É nesse encontro entre estas abordagens complementares que A Gênese da Curadoria no Brasil recompõe a história da atuação curatorial no país, revelando como essas práticas moldaram uma concepção de curadoria que é, ao mesmo tempo, experimental, política e profundamente enraizada no contexto brasileiro, e devolvendo ao campo sua espessura histórica.



