WASHINGTON DA SELVA: FLECHAS CONTRA A COLONIALIDADE QUÍMICA
- Elizabeth Bandeira
- há 1 dia
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Nascido na zona rural de Carmo do Paranaíba (MG), no bioma do Cerrado, Washington da Selva (1991) constrói uma obra que atravessa memória, território e denúncia. O artista articula pintura, performance e objeto para enfrentar o que nomeia como colonialidade química, transformando narrativas familiares, arquivos de trabalhadores e saberes da roça em contra-imagens sobre o agronegócio, o racismo ambiental e a permanência cultural no campo.
Elizabeth Bandeira - Como foram seus primeiros diálogos com as linguagens artísticas que você trabalha?
Washington da Selva - O contato com a natureza na infância rural foi o meu primeiro diálogo com diversas linguagens artísticas. Fui compreendendo que a arte esteve presente entre o brincar com os elementos naturais e os bichos, e também nos plantios, cultivos e colheitas com a família agricultora. Hoje, tenho desenvolvido pensamentos e gestos abordando a cultura a partir do viés da roça, compreendendo que a cidade (e o conhecimento produzido por e pela cidade) opera através da invisibilização e da marginalização do que é rural, do que é chão e do que é mato.

Desde a infância tenho apreço pelas linguagens manuais e uma necessidade diária de dedicar tempo para a manipulação e a criação artesã. Também, devido a tanta violência, tenho uma necessidade de utilizar as obras que crio como flechas de comunicação e denúncia. Misturo narrativa, gesto e material, ora pintando imagens das roças que visito em técnicas como a têmpera ovo, outrora bordando uma roupa destinada à aplicação de agrotóxicos. Minha intenção é fundar memória sobre meu território/coletivo e me colocando-me existindo contra as imposições derivadas pela colonialidade.
EB - Quais memórias e temáticas seguem rondando a sua produção? Como essas questões influenciam a forma como você investiga seu objeto de pesquisa?
WS - A minha produção segue movida pelo impacto do avanço da colonialidade química e das monoculturas em territórios familiares, ao abordar o racismo ambiental em terras ocupadas por lixo agrícola e pela presença massiva de lavouras de café. A partir da minha obra, tenho construído narrativas em resposta às ações do colonialismo químico no bioma do Cerrado. Na perspectiva que tenho trabalhado, o agronegócio — como tem sido praticado nas últimas décadas — é um projeto de etnocídio e de extinção cultural. Necessito desenvolver esse problema quando olho para narrativas de familiares que lavoraram em fazendas de café, pessoas que carregaram o fardo do trabalho análogo à escravidão nos tempos atuais. Destas narrativas, em 2021, lancei a vídeo-performance Guia para o manejo de paisagens tóxicas, como parte da pesquisa desenvolvida no Lab Cultural 2021¹. Na ocasião, sob a tutoria de Aline Motta, Dione Carlos, Gil Amâncio e Ricardo Aleixo, pesquisei sobre as roupas de proteção utilizadas pelos meus familiares em lavouras de café da região onde crescemos. Trajado de um Equipamento de Proteção Individual completo, performei a mistura desses arquivos orais e visuais, ao manejar os diálogos das memórias de trabalho na agricultura pelas narrativas de meus pais, Dona Aparecida e Sebastião Edilson, junto com as instruções em uma cartilha de cuidado no manejo de um conjunto de EPI de agrotóxicos. Assim, componho uma contra-narrativa performática da minha paisagem natal ao manusear, junto aos textos lidos, uma lata de produto químico, um grupo de cupons de registro de ponto do trabalhador e imagens de trabalhadores rurais que coletei de arquivos nacionais de fotografia.
Guia para o Manejo de Paisagens Tóxicas acaba apresentando um pouco de outras obras minhas como Lastro (resultado das impressões em cupons), e A Coroação (roupa EPI de agrotóxico que visto), trabalhos em diferentes linguagens mas que se unificam através do fio narrativo. Assim, a pesquisa que tenho desenvolvido traz consigo a relação autobiográfica, acompanhada de diálogos com o meu território. Nos últimos anos, tenho produzido trabalhos que necessitam de constantes retornos a fontes territoriais e documentais que são potencializadas e colocadas em crise pelas obras e textos gerados, dessa forma o resultado é um trabalho que comunica e documenta, como uma resposta natural, científica e política sobre o contexto que observo e me atinge.
Detalhes de Lastro, 2019–2021, 4 x cm (55 unid), foto-transferências em cupom de registro de ponto do trabalhador

EB - Você pode falar sobre algum trabalho mais específico ou alguma das suas séries que estejam atualmente te mobilizando criativamente?
WS - Sou resultado de uma família agricultora nômade e sem-terra. Atualmente, tenho compreendido o meu trabalho entre deslocamentos por diferentes lugares e produzido obras que imprimem os aspectos políticos do meu trânsito. Um exemplo disso é a série de pinturas em têmpera ovo Roça Brava (2023 - atual). Aprendi o que é cultura ao cultivar em família as plantas da roça. Roça Brava é fruto desse aprendizado ao lado das plantas e dos seres viventes que pertencem à cultura rural identitária ao meu lugar de ação e origem. Nas pinturas, busco trazer a complexidade desses lugares a partir do meu olhar de dentro, num trabalho sobre o “ir e vir” que começa visitando as roças cultivadas pelos meus familiares e se perpetua nos meus fluxos por diferentes zonas rurais brasileiras.
Roça Brava, 2023
Pintura em têmpera ovo sobre papel
Pintar essas imagens com têmpera ovo me proporciona adicionar camadas históricas e culturais para os trabalhos, ao produzir imagens com uma tinta preparada através da mistura de pigmentos com uma emulsão de água, gema de ovo, e própolis, como antifúngico. É uma pintura orgânica e produzida entre a cozinha e o ateliê. Como parte de seus ingredientes também são utilizados na alimentação do cotidiano, passei a incorporar esse resíduo alimentar durante o trabalho no ateliê, à medida que os ovos não são utilizados integralmente na pintura.
Em Cultivo de Imagens (2023), uma mão de unhas pintadas de verde segura uma espiga de milho crioulo, milho originário de coloração roxa cultivado na roça do meu pai. Em Ninho de Siriema (2023), a ave faz ninho em uma horta urbana cultivada na cidade de Botucatu. Em Ninho de Quero-Quero na lavoura (2025), a imagem de três ovos do pássaro emerge do chão sobre um fundo de lavouras de café, no distrito de Chaves. As obras produzem uma documentação autoficcional de situações do meu cotidiano.
Em 2023, participei da residência artística Terra Saúva. Ao pesquisar as práticas humanas e animais de agricultura local, alguns elementos coletados no Cerrado circundante à residência me fizeram chegar até a amoreira silvestre. Para incorporar uma cor da paisagem local, utilizei a polpa do fruto na têmpera e produzi um pigmento com cheiro e sabor. O que resultou também na apresentação de uma receita de quindim de amora, uma adaptação a partir do uso de alguns ingredientes que vão para a pintura, visando a intersecção entre alimento, agricultura e arte.

EB - Como é o seu processo criativo? Entre o rascunho e a materialização do trabalho, quais etapas são atravessadas neste desenvolvimento?
WS - Sou graduado e mestre em artes pelo Instituto de Artes e Design da Universidade Federal de Juiz de Fora (IAD/UFJF). O meu curso foi interdisciplinar e isso foi bom para que eu entendesse que a forma como o meu trabalho se materializa também seria assim, a partir de diferentes técnicas e suportes. Cada técnica evoca para uma gestualidade e aponta para um universo material e de sentidos reais e simbólicos. Como é o caso da série Formigamentos, onde bordo desenhos de formigas cortadeiras em diferentes peças de equipamentos utilizados para proteção do corpo humano.
Formigamentos, 2022–23, Bordado sobre par de luvas EPI's
Comecei a bordar em luvas de trabalhadores, a partir da coleta de luvas com meu pai, do ateliê do meu namorado, Matheus, e do meu ateliê próprio. A depender do tipo de trabalho a luva também é diferente. Então comecei a bordar manualmente essas formigas como forma de refletir sobre as manualidades e a toxicidade reais e simbólicas dos trabalhos executados por pessoas de classes operárias, do trabalho rural e dos ofícios artesãos e artísticos. Uma vez bordado com a formiga, o EPI é perfurado. Logo, perde função.

Depois fui compreendendo esse gesto de bordar as formigas cortadeiras, e a agir como elas ao perfurar com a agulha bordando esses desenhos em outros materiais. Assim nasceu Troco (2024), bordado em embalagens de bala de café, e Trovoada (2024), bordado em guarda-chuvas quebrados. São obras de toda uma série que é a Formigamentos, mas que possuem narrativas e naturezas próprias.
EB - Quais são as suas principais referências artísticas, visuais, sonoras, literárias, etc?
WS - Me encanto e tenho diversas referências de pessoas pelas quais as suas produções me transformam; Posso trazer uma grande música que me inspira do Gilberto Gil, mais especificamente em Refazenda. Nessa letra, Gil aborda diferentes relações culturais dessa fazenda que é verbo de refazer. A junção enigmática, simbólica e real dessas palavras, me escavou em pensamentos e ações. E é a partir da noção de que qualquer coisa feita pode ser refeita que tenho operado com o meu trabalho, nesse movimento “Refazendo tudo, Refazenda”, que Gil repete.
¹ Programa de incentivo a pesquisas artístico-culturais organizado pelo BDMG Cultural. Programa e Instituição cultural mineira extintos em 2024 pelo governo Zema.
















