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PAULO OLIVEIRA: PENSAR COMO ILHA, ESCULPIR MULTIDÃO

  • Guilherme Moraes
  • 4 de mar.
  • 3 min de leitura
Fotografia em cores, em ambiente interno de galeria expositiva. Em primeiro plano, à direita, uma escultura de madeira ocupa grande parte da imagem desfocada, revelando volumes orgânicos e uma superfície polida em tons castanhos. Ao centro, um homem de meia-idade, de pele morena clara, cabeça calva e barba grisalha aparada, veste camiseta azul-marinho, calça escura e tênis pretos com solado branco. Ele caminha lentamente entre pedestais brancos, com as mãos para trás, segurando um catálogo. Ao redor dele, esculturas em madeira de diferentes dimensões são apresentadas sobre bases expositivas. Ao fundo, destaca-se o texto da exposição aplicado diretamente na parede branca, iluminado por focos de luz. O piso é de madeira escura, e a iluminação direcionada cria uma atmosfera contemplativa, ressaltando os volumes das esculturas e conduzindo o olhar pelo espaço.
Vista da exposição Paulo Oliveira: pensar como ilha, esculpir multidão. Foto: Matheus Lohan

“Nada do que eu faço é determinado por mim. É uma história da madeira, é ela quem pede.” diz Paulo Oliveira (Moreno - PE, 1968), enquanto apresenta Pesadelo, entalhe em uma raiz de mangue-branco cuspida pelo mar. “Andei com ela nas costas por 5 km até em casa, estava cheia de arestas, mas não podia perder aquela madeira. De longe, já enxergava os personagens.” Ele levou um ano e três meses para desbastar a peça até que sobrasse a escultura. Indo do médio-relevo à completa tridimensionalidade, a obra é povoada por um intrincado de cenas de amor e loucura. Casais se tocam. Pessoas morrem. Um dragão expele um peixe voador com rosto de gente. Tudo surgido de uma imaginação que respeita o lenho. 


Escultura em madeira de tonalidade castanho-dourada, com acabamento polido e veios naturais aparentes. A composição possui estrutura vertical e orgânica, construída a partir de um tronco com raízes e galhos que se expandem em diferentes direções. Distribuídas por toda a peça, encontram-se numerosas figuras humanas, animais e elementos vegetais esculpidos em alto e baixo-relevo.
Na parte superior, duas figuras humanas estão lado a lado, voltadas em direções diferentes. Uma delas sustenta um peixe de grandes proporções, disposto na vertical. Ao redor surgem pequenas figuras humanas parcialmente incorporadas ao tronco.
À direita, um grande felino de olhos arredondados projeta a cabeça para fora da composição. Entre as mandíbulas, segura um peixe alongado, cujo corpo se estende para baixo. Na região inferior aparecem outras cabeças humanas, pequenos animais e raízes entrelaçadas que funcionam como base estrutural da escultura. À esquerda, uma figura feminina sentada integra-se ao tronco, com o corpo inclinado para a frente e os braços acompanhando as formas da madeira.
As raízes abertas sustentam toda a composição, criando uma sensação de crescimento natural. A peça apresenta grande riqueza de detalhes, diferentes planos de profundidade e múltiplos pontos de observação, revelando novas figuras conforme o olhar percorre sua superfície.
Pesadelo, 2003, Escultura em raiz de mangue-branco, 88 x 69 x 100 cm, acervo Pedro Pessoa

Quando vindos de raízes encontradas por Paulo em suas andanças, os trabalhos se abrem em diversas direções. É a partir do que observa na madeira que ele descobre seus personagens e assuntos. A orgiástica Democracia do Brasil traz em suas torções uma proliferação de seres trepados entre invaginações, falos, mãos, bicos e patas. Quando começa por blocos maciços, sem reentrâncias, chega a peças como Mulher de um pé só, de postura totênica, com gente e bichos inscritos nos troncos cavucados. O escultor extrai o essencial dos seres abaulados, fundindo distintos elementos através da redução de formas. 


Escultura em madeira escura, de acabamento liso e polido, apresentada sobre base oval da mesma madeira. A composição é vertical e representa uma figura humana de formas simplificadas e volumosas.
A personagem permanece de pé, frontal ao observador. A cabeça é arredondada, com cabelos marcados por sulcos paralelos. Os braços envolvem uma criança apoiada sobre o ombro esquerdo, em um gesto de acolhimento. O rosto da criança aparece parcialmente voltado para trás.
As pernas da figura são alongadas e cilíndricas. A perna direita prolonga-se diretamente até a base, enquanto a esquerda termina pouco abaixo do quadril. Sob essa perna incompleta, uma segunda pequena figura humana encontra-se encolhida sobre a base, com o corpo arqueado e a cabeça apoiada entre os braços e as pernas dobradas.
A escultura valoriza volumes compactos, superfícies contínuas e formas geométricas suavizadas, com poucos detalhes anatômicos e forte equilíbrio entre cheios e vazios.
Mulher de um pé só, 1992, escultura em casca de cajá, 30 x 03 x 08 cm

Passava um rio atrás da casa onde Paulo morava quando menino. Ele surrupiava folhas de bananeira do vizinho e, depois de acrescentar-lhes mastros e bandeiras, assistia a suas jangadinhas deslizarem pela água. Com móveis da casa, construía caminhões e viajava mundo afora sem sair do quintal. Aos 13 anos, iniciou-se caminhoneiro, como seu pai, seguindo neste ofício por duas décadas. Apesar de sua infância mudar de tom, a inventividade e a irreverência permaneceram no olhar imaginativo do artista. Durante 15 anos, entre idas e vindas, manteve-se fazendo Mulher sendo feliz, dotada da coerência formal dos ex-votos. “A cada parada do caminhão, eu trabalhava um pouquinho nela.” 


Escultura em madeira de tonalidade castanha, elaborada a partir de um tronco e seus galhos naturais. A composição possui estrutura vertical e assimétrica, reunindo diversas figuras humanas, animais e elementos orgânicos integrados ao crescimento da madeira.

Na região central destaca-se uma figura humana frontal, de torso alongado, braços abertos lateralmente e uma das mãos elevada acima da cabeça. O corpo apresenta formas simplificadas e volumes arredondados.

Na parte superior, outras figuras humanas surgem parcialmente incorporadas ao tronco, algumas voltadas de costas, outras em perfil. Entre elas aparecem um pássaro de bico comprido, pequenos animais e formas vegetais esculpidas diretamente nos galhos.

À direita destaca-se um grande elemento fálico curvo, integrado à estrutura do tronco e apontando para cima. Na região inferior, raízes espessas se espalham horizontalmente, formando a base da escultura. Entre essas raízes surgem pequenas figuras humanas e animais parcialmente ocultos.

A obra explora a própria configuração natural da madeira para organizar uma narrativa visual composta por múltiplas cenas interligadas. O acabamento preserva os veios, curvas e irregularidades do material, enfatizando sua origem orgânica e criando diferentes níveis de profundidade conforme a peça é observada de diversos ângulos.
Democracia do Brasil, 2005, Escultura em raiz de mangue-branco, 60 x 44 x 51 cm, acervo Diogo Cantarelli

Paulo teve sua primeira experiência com o barco a vela em Fernando de Noronha. Foi em um período semelhante quando sentiu o “chamado da arte”, força interior que o levou a abandonar a estrada, seu “primeiro grande amor”, e mergulhar de vez na madeira e no mar. Para ele, o fazer artístico e o navegar não se distinguem muito: ambos são modos de se conectar com a sua sensibilidade e a natureza, em especial as águas, cujas forças misteriosas são sua maior inspiração.






Mulher sendo feliz, 2023, Escultura em Imburana, 30 x 11 x 12 cm


Como uma onda quebrando, A viagem, feita em mangue-vermelho, sustenta uma atitude de clímax no embate entre o pormenor e a rusticidade. Com volúpia, o trabalho dança, líquido, conforme o arrodeamos. Fiel à madeira que fende, o escultor confere à peça apoteótica uma característica rítmica irregular. Irregular também é a constância da produção de Paulo Oliveira, que, aos 56 anos, realiza, na Torre Malakoff, a sua primeira exposição individual. “Você não faz arte só para si, faz também para os outros. Frustra não poder mostrar.” Mas, se por um lado este fazer oscila, por outro, não cessa, permanecendo, enquanto fagulha, no olhar de seu autor, que conclui: “Mas não posso, não vou deixar de fazer. É para isso que eu tô aqui”.


Vistas da exposição Paulo Oliveira: pensar como ilha, esculpir multidão. Foto: Matheus Lohan


Texto escrito para a mostra Paulo Oliveira: pensar como ilha, esculpir multidão, realizada pela Propágulo na Torre Malakoff de junho a agosto de 2025, com curadoria de Guilherme Moraes e Gugo Siqueira.



 
 
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