top of page

RINHA: A POÉTICA DE ARIVANIO

  • Guilherme Moraes
  • há 2 dias
  • 7 min de leitura

Disputa na arena de vida ou de morte

A sorte lançada no brilho do esporão

No centro da rinha ele ganha e explode

Numa raiva danada ele come uma galinha

Ê Ê paracatum paracumbá

(trecho de Os galos, canção de Cátia de França, 1979)


Por muito tempo, Quixelô foi um próspero polo têxtil do sertão do Ceará, mas na década de 80 o bicudo-do-algodoeiro vitimou a lavoura. Houve quem avistasse aviões monomotor norte-americanos largando os besouros que, com suas mandíbulas afiadas, perfuraram os botões dos pés de algodão. Perdida a plantação, a cidade esteve concentrada na produção de arroz, porém foi sendo cada vez mais difícil para a agricultura familiar competir com grandes produtores. Hoje boa parte dos empregos do município com pouco mais de 20.000 habitantes são cargos públicos oferecidos pela prefeitura.


Esta foi a Quixelô que conheci através do depoimento de Arivanio. Nesses anos todos, seus avós, caboclos agricultores e pescadores, faziam de tudo: bordavam, costuravam e produziam seus utensílios em cerâmica. O pai de seu pai era tio do pai de sua mãe, o que faz de Arivanio, além de neto, sobrinho-neto de um e primo em segundo grau do outro. Nascido em 1993, ele era um menino diferente. Seu avô dizia que, mesmo calado, Arivanio errava.


O garoto franzino e tagarela terminou o Ensino Médio precocemente. Aos 16 anos, passou a perseguir o sonho de ser artista. “Naquela época, eu ainda não tinha acesso à internet como hoje, então ia à biblioteca municipal pesquisar.” Lia manuais de arte e biografias de pintores como Pablo Picasso e Heitor dos Prazeres. Em 2012, conheceu o primeiro artista em carne e osso: Ruy Relbquy¹. “Não existe o Arivanio sem o Ruy”, afirma emocionado. “A gente se telefonava uma vez por semana ou a cada 15 dias. A primeira tela que eu vi na vida foi dele. Eu não sabia que era possível fazer aquilo. Hoje parece absurdo, mas na época não tinha referência, só via nas fotos dos livros.”


A pintura de Arivanio foi agradando cada vez mais pessoas em Quixelô. “Então mudei.”, ele conta, ao mostrar a parede de sua casa, encavalitada de quadros seus desde que começou sua jornada até os dias de hoje. Um dos trabalhos mais antigos pregado na alvenaria é de uma mulher branca, de vestido claro, entre dois girassóis agigantados. “Eu fazia esse tipo de trabalho para vender e comprar o gás e a feira. Mas aí acendeu uma lanterninha: se tanta gente estava gostando, deveria ser decorativo demais. Então fui para outro tipo de produção”. 


Em 2016 Arivanio fez parte da 13ª Bienal Naïfs do Brasil, Todo mundo é, exceto quem não é, no Sesc Piracicaba (SP), com curadoria de Clarissa Diniz, Claudinei Roberto da Silva e Sandra Leibovic. A partir de então uma coisa foi puxando a outra. Um ano depois, compôs a 1º BÏNaïf - Bienal Internacional de Arte Naïf, Totem Cor-Ação, no Museu Municipal de Socorro (SP). Em 2020, esteve na 15ª Bienal Naïfs do Brasil, Ideias para adiar o fim da arte, curada por Renata Felinto e Ana Velar. Apesar desse pontapé, ele reconhece o naïf como uma tipologia ambígua. “Não é justo negar a identidade de alguém que tá dizendo ‘eu existo’”, disse-lhe uma vez Clarissa Diniz. Desse ponto ele também é partidário. Por outro lado, há um empenho em fazer com que sua pesquisa seja compreendida dentro do panorama da arte brasileira para além do rótulo. Nesse sentido, uma guinada importante foi estar entre os selecionados do 7º Prêmio EDP nas Artes do Instituto Tomie Ohtake² e, no ano de 2025, ser finalista do Prêmio Pipa.


Cachorra parindo IV, 2022, acrílica sobre tela, 54,5 x 71 cm
Cachorra parindo IV, 2022, acrílica sobre tela, 54,5 x 71 cm

Babilônia, 2022, Acrílica sobre Banner, 78,5x76 cm
Babilônia, 2022, Acrílica sobre Banner, 78,5x76 cm

Arivanio é interessado pela figuração. Em geral, os fundos dos seus quadros são preenchidos por poucas cores e elementos: dois planos estabelecem o horizonte, normalmente em vermelho. Num deles, flutua a lua, personagem assíduo a acompanhar sua caminhada inusual. Quando não há delimitação entre céu e terra, as figuras ou são dispostas como se pisassem nas extremidades da tela ou estão a levantar voo. Linhas negras demarcam-nas e suas volumetrias não interessam. Vemos cadelas, tantas vezes alvas, a perambular por noites sanguíneas. Elas são como espelhos de nós, vibrando entre identidade e instinto. As cachorras parem, uivam, mijam, mamam, copulam, ladram, sendo tradução do repertório visual cotidiano e fantasioso do artista. Cotidiano pois deriva de cenas rotineiras de Quixelô ou Juazeiro do Norte, onde hoje mora. Fantasioso por ganhar uma contundência gráfica digna de maravilhas ou de tragédias. O teor do mundo aos olhos de Arivanio é feérico, contrastado, por vezes dualista, mas nunca, desde que deixou de produzir girassóis, nunca brando.


O léxico de seu trabalho também é formado por galos, urubus, serpentes e carcaças. De quando em quando, surgem inserções inesperadas. Estas, como palavras preciosas demais para se usar a todo momento, são empregadas com parcimônia por Arivanio.


MÚLTIPLO ARIVANIO
R$350.00R$315.00
Comprar

Armagedon o grande conflito, 2023, acrílica sobre tela, 80 x 60 cm
Armagedon o grande conflito, 2023, acrílica sobre tela, 80 x 60 cm

Em trabalhos como Babilônia (2022) e Cachorra parindo IV (2022) vê-se como essas conjugações acontecem através dos seres sobre a paisagem de escuridão carmim. O artista irmana o fantástico ao apocalíptico nas suas cenas viscerais como o sangue e o leite que pingam dessas criaturas. Já em Ouro x bronze (2023), Armagedon o grande conflito (2023), A serpente antes do castigo voava (2023) testemunhamos o embate entre galos³. A rinha ganha ares de batalha do bem contra o mal e as criaturas de longas plumas tornam-se fênixes a voar pelo céu. Essa força antitética, em que os animais figuram como arcanjos ou anjos caídos num encontro mágico, também está presente no laço copulatório de Coito ou cópula (2021), em que vemos um cão e uma cadela atados um ao outro.


Ouro x bronze (2023) e Coito ou cópula (2021)


Quem protege as travestis no Brasil? Retrato de Yná, 2022 acrílica sobre tela 148 x 126 cm
Quem protege as travestis no Brasil? Retrato de Yná, 2022 acrílica sobre tela 148 x 126 cm

Em todos esses casos, o artista transforma o corriqueiro em colossal. Noutros, suas pinturas propõem um absurdismo alimentado por esta mesma energia. Aí entram em ação as tais das palavras guardadas para dizeres específicos. Em Beyoncé (2022) vemos a diva pop montada em um alazão espectral abaixo do costumeiro céu rubro. Aos pés do corcel, corre um riacho azul sobre o chão negro. Na base da pintura, consta gravado “Beyoncé declara a 2ª independência do Brasil”. Segundo Arivanio, foi “uma forma de dizer que o Brasil precisaria de novos ídolos. Beyoncé serviu para apontar para o fato de que mais uma vez precisaríamos de uma pessoa externa para nos validar. Apesar de ser uma mulher negra, artista, ela ainda seria uma mulher norte-americana a declarar nossa segunda independência”. Em Quem protege as travestis no Brasil? Retrato de Yná (2022), o artista parte de seu interesse sobre figuras híbridas “que percorrem desde mitologias como a grega, a romana e a egípcia, até paralelos que encontrei na cultura do meu povo, os Kixelô Kariris, com entidades que são metade humanas, metade bicho”. A obra foi uma homenagem a uma amiga artista, Yná Kabe Rodríguez que correlaciona travestis a onças, ambas existindo apesar da constante ameaça de extinção. 


Beyoncé, 2022 acrílica sobre tela 82,5 x 89 cm
Beyoncé, 2022 acrílica sobre tela 82,5 x 89 cm

O trabalho de Arivanio está aberto a influências de todos os lados. É autobiográfico, irônico, político e brota do cotidiano prismado por seus olhos. Este, não é anacrônico, não fala de um pedaço imemorial do Brasil. Muito pelo contrário, é a nós coetâneo e por isso mescla tradições e cultura de massa, história da arte e sonho, bicho e gente, bíblico e popular. São matérias do seu mundo e ele, como artista, deve precisamente conjugá-lo. 


Muito antes do arroz, da praga do bicudo-do-algodoeiro ou mesmo das próprias lavouras de algodão, as terras em que hoje fica Quixelô eram habitadas por indígenas. Na realidade, é deles que vem o nome da cidade. Desinformados dirão que os Kixelô, duramente perseguidos pelos colonizadores, foram exterminados, mas muitos sabem: a memória de seus antepassados segue viva. Ela está inscrita nos rostos e costumes de muitos dos provenientes da região. Alguns, como os avós de Arivanio, preferem denominar-se caboclos, como se outra palavra fosse precipitada demais, antiga demais, ousada demais. Outros, como  Arivanio, que começou a assinar Puluca Kixelô Kariri após seu primeiro nome, estão a retomá-la. Indígena em contexto urbano no sertão cearense, ele cresceu entre santeria, protestantismo, espiritismo e catolicismo. Mas, de uma forma ou de outra, ritos e crendices deram seus jeitos de escorrer pelas frestas dos costumes impostos por meio de sincretismos possíveis. Híbrido, o trabalho de Arivanio apresenta uma paisagem irresolvível. Incômoda para tantos olhos, coisa que girassol nenhum seria.


¹ Ruy Relbquy (CE - 1988) é graduado em História e pós-graduado em História da Arte. Vive e produz na comunidade rural de Riacho do Meio, em Quixelô, Ceará. Sua obra transita entre pintura, performance e fotografia, dialogando com temas como território, ancestralidade, deficiência, identidade indígena e LGBTQIA+. Em 2021, passou a se afirmar como indígena não aldeado após participar do grupo de retomada Kixelô Kariri. Foi selecionado para a 76ª edição do Salão de Abril. Coordena a Casa Atelier, onde realiza oficinas, saraus e ações culturais com a comunidade.


² O Instituto Tomie Ohtake e a EDP, com o apoio do Instituto EDP, apresentam a exposição dos 10 artistas selecionados ao 7º Prêmio EDP nas Artes, dedicado a jovens artistas de todo o Brasil, nascidos ou residentes no país há pelo menos dois anos. Foram selecionados por um júri composto pelos artistas Arthur Chaves, Dora Longo Bahia e Elilson e pelos curadores Amanda Carneiro e Theo Monteiro.


³ Aqui, Arivanio reconhece a contribuição da tradição cristã em sua iconografia. Na simbologia católica, o galo e seu canto ao amanhecer representam a vitória da luz contra a escuridão. Também são inúmeros os artistas que representaram galos e, mais precisamente, rinhas. Chico da Silva, Aldemir Martins e Chagall, citados por Arivanio, são exemplos.



bottom of page