top of page

MORDIDA

  • Propágulo
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Texto publicado no stand da Propágulo na ART.PE 2025



Agarramos uma presa com nossos dentes amolados. Mordemo-la, dilaceramo-la em nacos para enfim mastigar sua carne dentro desse espaço cavernoso, de céu sempre noturno, ao qual chamamos boca. A boca lambe os pedaços do mundo tragado pelo dia com sua escuridão molhada. Arranca-os de seu corpo, toma-os para si. É a este movimento de rasgo do tecido do mundo para então torcer-lhe e embeber-lhe de mistério que esta mostra responde. Muito mais que fazer do entorno uma grande similitude, a escuridão desperta em nós um sentimento de alteridade. 


Henrique Reis, Alecrim, acrílica sobre couro caprino, 100 x 70 cm, 2023.
Henrique Reis, Alecrim, acrílica sobre couro caprino, 100 x 70 cm, 2023.

Nesse contexto, inscreve-se Alecrim, acrílica sobre couro caprino de Henrique Reis (1995), de Macajuba, no semiárido baiano. Sua pintura propõe uma representação espectral da cotidianidade sertaneja desvinculada da luz solar. Terra, fauna, flora e gente são flagrados embrenhados num escuro tomado pela mata branca. O seu sertão não é translúcido, mas fluido, relacional, poroso, contraditório e prenhe de segredos. Também do semiárido, desta vez cearense, Arivanio (1993), nascido em Quixelô, quase sempre pontua suas pinturas com a figura da lua, mas na serigrafia A primeira cachorra presidenta do Brasil é apresentanda uma paisagem engolida por um Sol negro. A cadela, elemento assíduo do repertório cotidiano e fantasioso que acompanha o artista, posa num plinto com suas tetas pendentes. A criatura parece esgoelar-se em regozijo ao vestir a faixa presidencial.


MÚLTIPLO ARIVANIO
R$350.00
Comprar

A boca é uma das primeiras partes do corpo a transmutar nas lendas dos lobisomens. Nas noites de lua cheia, pessoas têm as mandíbulas avolumadas e das suas gengivas brotam uma infinidade de caninos. A transmutação é um ponto importante na poética de Gabz 404 (1991), artista de Porto Alegre. Através de imagens geradas com inteligência artificial, ele propõe Insurgência de aquário, onde busca dar rosto a um sentimento, vasto, maravilhoso e abissal, que é a linha tênue, vibrátil, entre a dor e o alívio de injetar-se a testosterona. Já em Menine, a transição parece ser voraz na mesma medida em que se apresenta delicada. Gabz revisita uma fotografia de sua infância, alterando indumentárias e acessórios para mostrar dois retratos seus: um correspondente ao espaço-tempo no qual tinha esta pouca idade, outro a uma performativdade que aos seus olhos de hoje lhe seria mais adequada. O estatuto de verdade, falaciosamente atribuído à linguagem fotográfica, é fraturado.


Gabz 404, Menine, fotografia e imagem sintéticaa, 2025.
Gabz 404, Menine, fotografia e imagem sintéticaa, 2025.

As saúvas são especialistas em trincar, picar e modificar seu ambiente. Tudo começa pelas suas mandíbulas, apêndices usados para o transporte de alimentos, manipulação de objetos, construção de ninhos e defesa. Ana Flávia Marú (1992), de Itumbiara, no sul de Goiás, e radicada em Goiânia, está sempre atenta a esses insetos estalantes. As saúvas, presentes em toda a territorialidade nacional, oferecem-lhe uma gramática infindável. Nas risografias que formam Palavras mordidas, ela elabora um alfabeto de folhas recortadas por formigas que encontrou por suas andanças.


Palavras Mordidas (2025), risografia sobre papel


MÚLTIPLO ANA FLÁVIA MARÚ
R$350.00
Comprar

O vegetal transmutado também está presente na obra de Paulo Oliveira (1996). A viagem, esculpida em mangue-vermelho pelo artista originário de Moreno, região Metropolitana do Recife, dança conforme o arrodeamos. Fiel à madeira que fende, o escultor confere à peça apoteótica uma característica rítmica irregular. Olhos e garras, pássaros e monstros, lacraias e serpentes brotam de todo o seu corpo.


Paulo Oliveira, Pesadelo, 2003, Escultura em raiz de mangue-branco, 88 x 69 x 100 cm, acervo Pedro Pessoa
Paulo Oliveira, Pesadelo, 2003, Escultura em raiz de mangue-branco, 88 x 69 x 100 cm, acervo Pedro Pessoa

A noite, assim como a arte, é esse campo grávido de mistério. As propostas aqui reunidas são fruto de artistas que tomam para si o desconhecido no qual estão imersos. Encontram-no, transformam-no, transformam-se, encontram-se. 




 
 
bottom of page