MORDIDA
- Propágulo
- há 1 dia
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Texto publicado no stand da Propágulo na ART.PE 2025

Agarramos uma presa com nossos dentes amolados. Mordemo-la, dilaceramo-la em nacos para enfim mastigar sua carne dentro desse espaço cavernoso, de céu sempre noturno, ao qual chamamos boca. A boca lambe os pedaços do mundo tragado pelo dia com sua escuridão molhada. Arranca-os de seu corpo, toma-os para si. É a este movimento de rasgo do tecido do mundo para então torcer-lhe e embeber-lhe de mistério que esta mostra responde. Muito mais que fazer do entorno uma grande similitude, a escuridão desperta em nós um sentimento de alteridade.

Nesse contexto, inscreve-se Alecrim, acrílica sobre couro caprino de Henrique Reis (1995), de Macajuba, no semiárido baiano. Sua pintura propõe uma representação espectral da cotidianidade sertaneja desvinculada da luz solar. Terra, fauna, flora e gente são flagrados embrenhados num escuro tomado pela mata branca. O seu sertão não é translúcido, mas fluido, relacional, poroso, contraditório e prenhe de segredos. Também do semiárido, desta vez cearense, Arivanio (1993), nascido em Quixelô, quase sempre pontua suas pinturas com a figura da lua, mas na serigrafia A primeira cachorra presidenta do Brasil é apresentanda uma paisagem engolida por um Sol negro. A cadela, elemento assíduo do repertório cotidiano e fantasioso que acompanha o artista, posa num plinto com suas tetas pendentes. A criatura parece esgoelar-se em regozijo ao vestir a faixa presidencial.
A boca é uma das primeiras partes do corpo a transmutar nas lendas dos lobisomens. Nas noites de lua cheia, pessoas têm as mandíbulas avolumadas e das suas gengivas brotam uma infinidade de caninos. A transmutação é um ponto importante na poética de Gabz 404 (1991), artista de Porto Alegre. Através de imagens geradas com inteligência artificial, ele propõe Insurgência de aquário, onde busca dar rosto a um sentimento, vasto, maravilhoso e abissal, que é a linha tênue, vibrátil, entre a dor e o alívio de injetar-se a testosterona. Já em Menine, a transição parece ser voraz na mesma medida em que se apresenta delicada. Gabz revisita uma fotografia de sua infância, alterando indumentárias e acessórios para mostrar dois retratos seus: um correspondente ao espaço-tempo no qual tinha esta pouca idade, outro a uma performativdade que aos seus olhos de hoje lhe seria mais adequada. O estatuto de verdade, falaciosamente atribuído à linguagem fotográfica, é fraturado.

As saúvas são especialistas em trincar, picar e modificar seu ambiente. Tudo começa pelas suas mandíbulas, apêndices usados para o transporte de alimentos, manipulação de objetos, construção de ninhos e defesa. Ana Flávia Marú (1992), de Itumbiara, no sul de Goiás, e radicada em Goiânia, está sempre atenta a esses insetos estalantes. As saúvas, presentes em toda a territorialidade nacional, oferecem-lhe uma gramática infindável. Nas risografias que formam Palavras mordidas, ela elabora um alfabeto de folhas recortadas por formigas que encontrou por suas andanças.
Palavras Mordidas (2025), risografia sobre papel
O vegetal transmutado também está presente na obra de Paulo Oliveira (1996). A viagem, esculpida em mangue-vermelho pelo artista originário de Moreno, região Metropolitana do Recife, dança conforme o arrodeamos. Fiel à madeira que fende, o escultor confere à peça apoteótica uma característica rítmica irregular. Olhos e garras, pássaros e monstros, lacraias e serpentes brotam de todo o seu corpo.

A noite, assim como a arte, é esse campo grávido de mistério. As propostas aqui reunidas são fruto de artistas que tomam para si o desconhecido no qual estão imersos. Encontram-no, transformam-no, transformam-se, encontram-se.














