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MORDIDA

Propágulo
18 de jun.
3 min de leitura

Texto publicado no stand da Propágulo na ART.PE 2025


Fotografia em perspectiva de uma parede expositiva de galeria de arte, com fundo branco e iluminação difusa. Em primeiro plano, à esquerda, ocupa grande parte da imagem uma escultura escura, desfocada pela proximidade da câmera. A peça apresenta superfície irregular, orgânica e volumosa, com formas que lembram galhos, raízes ou membros entrelaçados, criando uma moldura parcial para a cena ao fundo.

Ao longo da parede, em foco, distribui-se um conjunto de obras de diferentes linguagens. À esquerda, há uma composição de seis pequenos desenhos emoldurados em madeira clara, organizados em duas fileiras irregulares. Ao lado, uma obra gráfica em moldura preta apresenta ilustração em preto e branco sobre fundo escuro. No centro da parede, destaca-se uma pele animal curtida ou couro estendido, fixado diretamente na superfície, com contorno irregular e extremidades abertas. À sua direita, duas pequenas esculturas murais de formato arredondado projetam-se discretamente da parede. Mais à direita, duas fotografias coloridas de um menino de cabelos cacheados aparecem lado a lado, em suportes transparentes. Em uma delas, veste blusa listrada em vermelho e preto; na outra, blusa em tons de azul e cinza. O amplo espaço vazio da parede enfatiza o diálogo entre as obras e evidencia a diversidade de suportes presentes na exposição.


Agarramos uma presa com nossos dentes amolados. Mordemo-la, dilaceramo-la em nacos para enfim mastigar sua carne dentro desse espaço cavernoso, de céu sempre noturno, ao qual chamamos boca. A boca lambe os pedaços do mundo tragado pelo dia com sua escuridão molhada. Arranca-os de seu corpo, toma-os para si. É a este movimento de rasgo do tecido do mundo para então torcer-lhe e embeber-lhe de mistério que esta mostra responde. Muito mais que fazer do entorno uma grande similitude, a escuridão desperta em nós um sentimento de alteridade. 


Pintura realizada sobre couro animal estendido na parede, preservando o contorno irregular da pele, com bordas claras e pelagem aparente. No centro da superfície escura encontra-se uma cena pintada em preto, branco e cinza. Quatro figuras humanas caminham por um caminho cercado por vegetação densa, iluminadas por áreas claras que contrastam com o fundo negro. A composição vertical acompanha o formato alongado do couro, integrando o suporte orgânico à imagem representada. As margens irregulares e as marcas naturais da pele permanecem visíveis, tornando o suporte parte da obra.
Henrique Reis, Alecrim, acrílica sobre couro caprino, 100 x 70 cm, 2023.

Nesse contexto, inscreve-se Alecrim, acrílica sobre couro caprino de Henrique Reis (1995), de Macajuba, no semiárido baiano. Sua pintura propõe uma representação espectral da cotidianidade sertaneja desvinculada da luz solar. Terra, fauna, flora e gente são flagrados embrenhados num escuro tomado pela mata branca. O seu sertão não é translúcido, mas fluido, relacional, poroso, contraditório e prenhe de segredos. Também do semiárido, desta vez cearense, Arivanio (1993), nascido em Quixelô, quase sempre pontua suas pinturas com a figura da lua, mas na serigrafia A primeira cachorra presidenta do Brasil é apresentanda uma paisagem engolida por um Sol negro. A cadela, elemento assíduo do repertório cotidiano e fantasioso que acompanha o artista, posa num plinto com suas tetas pendentes. A criatura parece esgoelar-se em regozijo ao vestir a faixa presidencial.


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A boca é uma das primeiras partes do corpo a transmutar nas lendas dos lobisomens. Nas noites de lua cheia, pessoas têm as mandíbulas avolumadas e das suas gengivas brotam uma infinidade de caninos. A transmutação é um ponto importante na poética de Gabz 404 (1991), artista de Porto Alegre. Através de imagens geradas com inteligência artificial, ele propõe Insurgência de aquário, onde busca dar rosto a um sentimento, vasto, maravilhoso e abissal, que é a linha tênue, vibrátil, entre a dor e o alívio de injetar-se a testosterona. Já em Menine, a transição parece ser voraz na mesma medida em que se apresenta delicada. Gabz revisita uma fotografia de sua infância, alterando indumentárias e acessórios para mostrar dois retratos seus: um correspondente ao espaço-tempo no qual tinha esta pouca idade, outro a uma performativdade que aos seus olhos de hoje lhe seria mais adequada. O estatuto de verdade, falaciosamente atribuído à linguagem fotográfica, é fraturado.


Duas fotografias coloridas, apresentadas lado a lado, formam um díptico de retratos infantis realizado em estúdio. Ambas mostram a mesma criança, de pele clara, cabelos escuros, volumosos e cacheados, enquadrada do peito para cima, com o corpo levemente voltado para a direita e o rosto direcionado à câmera. A expressão é serena, com um discreto sorriso e olhar tranquilo. O fundo neutro, em tom claro, valoriza a figura retratada.

Na fotografia à esquerda, a criança veste um suéter de tricô com largas listras horizontais vermelhas e azul-marinho. A gola alta azul-marinho permanece fechada até o pescoço. Os cabelos são soltos, formando um volume arredondado ao redor da cabeça. A iluminação suave destaca os cachos e os traços delicados do rosto.

Na fotografia à direita, a pose permanece praticamente a mesma, sugerindo tratar-se de um retrato realizado na mesma sessão. A principal diferença está na aparência construída pelos acessórios e pelas roupas. A criança usa um suéter de tricô em tons de cinza e azul, com padronagens geométricas horizontais. Sobre os cabelos cacheados, uma tiara fina de cor roxa mantém parte dos fios afastados da testa. Na parte inferior da imagem, aparece um detalhe de roupa vermelha, parcialmente visível. O olhar, a leve inclinação da cabeça e a expressão permanecem semelhantes aos da fotografia anterior.

Apresentadas em conjunto, as duas imagens estabelecem um diálogo baseado na repetição e na diferença. A mudança de vestimenta e da presença da tiara transforma sutilmente a percepção da identidade retratada, convidando o observador a refletir sobre construção de gênero, memória, representação e performatividade por meio de pequenas alterações visuais em retratos aparentemente idênticos.
Gabz 404, Menine, fotografia e imagem sintéticaa, 2025.

As saúvas são especialistas em trincar, picar e modificar seu ambiente. Tudo começa pelas suas mandíbulas, apêndices usados para o transporte de alimentos, manipulação de objetos, construção de ninhos e defesa. Ana Flávia Marú (1992), de Itumbiara, no sul de Goiás, e radicada em Goiânia, está sempre atenta a esses insetos estalantes. As saúvas, presentes em toda a territorialidade nacional, oferecem-lhe uma gramática infindável. Nas risografias que formam Palavras mordidas, ela elabora um alfabeto de folhas recortadas por formigas que encontrou por suas andanças.


Palavras Mordidas (2025), risografia sobre papel


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O vegetal transmutado também está presente na obra de Paulo Oliveira (1996). A viagem, esculpida em mangue-vermelho pelo artista originário de Moreno, região Metropolitana do Recife, dança conforme o arrodeamos. Fiel à madeira que fende, o escultor confere à peça apoteótica uma característica rítmica irregular. Olhos e garras, pássaros e monstros, lacraias e serpentes brotam de todo o seu corpo.


Escultura em madeira de tonalidade castanho-dourada, com acabamento polido e veios naturais aparentes. A composição possui estrutura vertical e orgânica, construída a partir de um tronco com raízes e galhos que se expandem em diferentes direções. Distribuídas por toda a peça, encontram-se numerosas figuras humanas, animais e elementos vegetais esculpidos em alto e baixo-relevo.
Na parte superior, duas figuras humanas estão lado a lado, voltadas em direções diferentes. Uma delas sustenta um peixe de grandes proporções, disposto na vertical. Ao redor surgem pequenas figuras humanas parcialmente incorporadas ao tronco.
À direita, um grande felino de olhos arredondados projeta a cabeça para fora da composição. Entre as mandíbulas, segura um peixe alongado, cujo corpo se estende para baixo. Na região inferior aparecem outras cabeças humanas, pequenos animais e raízes entrelaçadas que funcionam como base estrutural da escultura. À esquerda, uma figura feminina sentada integra-se ao tronco, com o corpo inclinado para a frente e os braços acompanhando as formas da madeira.
As raízes abertas sustentam toda a composição, criando uma sensação de crescimento natural. A peça apresenta grande riqueza de detalhes, diferentes planos de profundidade e múltiplos pontos de observação, revelando novas figuras conforme o olhar percorre sua superfície.
Paulo Oliveira, Pesadelo, 2003, Escultura em raiz de mangue-branco, 88 x 69 x 100 cm, acervo Pedro Pessoa

A noite, assim como a arte, é esse campo grávido de mistério. As propostas aqui reunidas são fruto de artistas que tomam para si o desconhecido no qual estão imersos. Encontram-no, transformam-no, transformam-se, encontram-se. 


Fotografia de um espaço expositivo que integra área de leitura e mediação. Em primeiro plano, uma mesa redonda de madeira ocupa o centro da composição, cercada por quatro cadeiras de plástico branco. Sobre a mesa encontram-se publicações e catálogos de arte abertos e fechados, um notebook fechado, pequenos impressos e um catálogo exposto em suporte vertical, voltado para o visitante.
À esquerda, uma estante metálica baixa acomoda livros empilhados horizontalmente, além de tubos de papel apoiados na parte inferior. Ao fundo, a parede branca reúne diferentes obras. À esquerda, seis desenhos delicados em molduras de madeira clara estão organizados em composição assimétrica. Ao centro, uma gravura emoldurada em preto apresenta imagem figurativa em alto contraste. À direita, parte de uma pele animal curtida, instalada diretamente na parede, aparece apenas parcialmente enquadrada, sugerindo sua continuidade para fora da fotografia.
A iluminação homogênea e a organização do ambiente conferem atmosfera silenciosa e convidativa, integrando o espaço de consulta aos materiais editoriais com o conjunto das obras expostas.


 
 
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