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Gabz 404: a confusão é parte do método. 

  • Guilherme Moraes
  • há 11 horas
  • 5 min de leitura
Transgeneridade, série 2384
Transgeneridade, série 2384

“O artista sem obras atua, em constante estudo e autodesignação, dentro de uma concepção de arte que tende a se perder quando extrapola seus limites, levando a preencher consigo mesmo nosso mundo. Trata-se de uma abordagem de arte, e de artista, que encara e manipula a tensão que engloba o trágico da vida cotidiana e suas potencialidades; que se liga à qualidade do agir humano atento às energias latentes na vida e nas relações sociais nelas imbricadas.” - Bruna Rafaella Ferrer, Pequeníssimo Manual para Sobreviventes Artistas sem Obra.¹ 


O acompanhamento curatorial que realizei com Gabz 404 (Porto Alegre,1991) teve início na transição geográfica em que ele se encontrava, indo da capital gaúcha para São Paulo, na ocasião da Residência Artística da FAAP, em 2025. Artista visual, fotógrafo, pesquisador, escritor e astrólogo, no entrecruzamento de seus interesses, Gabrielle é essencialmente um investigador das imagens.


Toda imagem — seja pintura, fotografia, simulacro algorítmico, design ou anúncio publicitário — é uma faca de dois gumes. Como propõe Paul B. Preciado, tecnologias sempre foram sistemas políticos que garantiram a reprodução de estruturas específicas. Mas, como nos lembra o autor ao evocar Donna Haraway, não há tecnologia intrinsecamente limpa ou suja. Sua natureza é ambivalente: tanto produto de estruturas de poder quanto zona potencial de reinvenção e resistência.²



O esbarro entre o que há de emancipatório e de destrutivo na imagem faz brilhar os olhos de Gabz. Seu trabalho busca a revulsão de linguagens visuais. Com fotografia, apropriação ou criações sintéticas, ele vai de encontro à apatia da lisura cotidiana que chega às nossas retinas. Gabz 404 costura estranhamento e familiaridade através de percursos imagéticos. Não caminhamos diante deles de forma automática. Seu relevo mutante nos faz claudicar, tropeçar e acordar, ainda que momentaneamente, do transe das imagens fáceis de digerir.   


Eram duas abordagens complementares, ele me disse: a FAAP cedia-lhe o espaço, um apartamento-estúdio no histórico Edifício Lutetia, na Praça do Patriarca, centro da capital paulistana; a Propágulo, remotamente, conferia-lhe interlocução. Acontece que, em determinado momento, uma terceira metade foi ganhando espaço: Gabz passou a cursar pré-vestibular. Ele, que havia se desvinculado da universidade há alguns anos, cruzava a cidade entre um prédio de 1920 e outro construído em 1944, o edifício Gazeta, na Avenida Paulista. Entre o ateliê e a sala de aula, Gabrielle se angustiava: sentia não estar produzindo artisticamente. Suas ideias pareciam se dissolver frente ao tempo imprensado pelas questões de português, matemática ou física.


A partir da imagem, Gabz 404 fricciona a construção de realidade, a fabulação, a preservação da memória e o controle que permeia tal poder. Ser uma pessoa transmasculina posiciona-o diante do mundo, integrando a tônica de seu olhar: no transporte público, nas redes sociais ou no âmbito privado; nos brechós ou nas megastores; nos hospitais e nas salas de aula, no próprio espelho. Da cacofonia, concatena e constrói um arquivo dissidente não apenas em seu conteúdo, mas na maneira monstruosa e delicada através da qual é elaborado.


trans queer1
trans queer1

Nas séries Insurgência de Aquário e 2384, o artista atenta para como as ferramentas de IA armazenam dados do inconsciente coletivo vigente, e o quanto esses programas refletem nossos desejos, receios e projeções, como indica Luís Alegre. Enquanto elaboração estatística, eles respondem à incidência de imagens com as quais se alimentam. O resultado é um acervo desequilibrado, outra tecnologia de sustentação de regimes normativos de verdade. Enquanto a fotografia possui alguma função documental, ainda sendo “de algo”, “A imagem gerada por IA, em contraste, separa-se completamente de qualquer ancoragem referencial. À medida que os modelos generativos sintetizam imagens sem referentes no mundo real, a noção de imagem como evidência entra em colapso. Esta mudança representa não apenas uma evolução tecnológica, mas uma rutura epistemológica profunda: a imagem deixa de ser índice de realidade e torna-se uma alucinação estatística”.³


Série Insurgência de aquário

Em março de 2025 aconteceu o ateliê aberto da residência artística na FAAP. Eram ao todo 10 artistas, em sua maioria brasileiros, mas também da Colômbia, da França, de Portugal e do México. No estúdio de número 52, estavam dispostas algumas fotografias na parede e zines no balcão correspondente à cozinha do apartamento. No meio da sala, sobre duas mesas, mais imagens. A rotatividade entre as pessoas que adentravam no loft era intensa: duplas ou trios em quantidade suficiente para que o artista precisasse emendar o fim de uma mediação de seu ateliê com o início de outra. 


Cirurgicamente removido
Cirurgicamente removido

Houve encontros nos quais parte do que Gabz narrava para mim era o vaivém na cidade. Alguns pontos, contudo, chamavam-me a atenção: era, por exemplo, a primeira vez que frequentava banheiros masculinos em um ambiente escolar. O que aquelas cabines e as conversas que vinha de além das suas paredes lhe informavam? Outra questão gritante era a transmissão bancária, como já dizia Freire, de conhecimento, antípoda de sua forma de criar discurso. Se celebra a ambivalência, como defrontar questões de resposta fechada? O momento era de concessões estratégicas em função de um futuro na universidade.



Vestibular prestado. Passaram-se os meses. Em fevereiro de 2026, o resultado: aprovado em medicina. Como fica o artista diante desta notícia? Percebi que eu, curador, tinha muito a aprender com essa situação, pois esperar de um artista íntimo da borda e da instabilidade da linguagem que produza dentro de parâmetros mercadológicos ou institucionais nos quais transito seria violentar sua existência. Ao longo dos acompanhamentos mensais que transcorreram por todo 2025, Gabz 404 me relembrava: faz-se arte para conferir mais densidade ao nosso existir, para “dexistir”, como propõe Bruna Rafaella Ferrer. Toda prática artística, ainda que privada ou bissexta, é válida. Se a contundência do que Gabz propõe é tamanha, e se julgamos que esta deve ser vista, é, no fim das contas, mais um problema que mais nós (eu) precisamos resolver do que propriamente o artista.  


Gabz habita a beira. Por isso tantos modos de ser e fazer colapsam ao falar dele. Por isso, além de artista visual, fotógrafo, pesquisador, escritor e astrólogo, foi vestibulando e, agora, será médico. Um médico informado por um ser artista, saber que contaminará, torço, a estética das relações que com ele serão cultivadas. Em seu caso, ser artista é inescapável, e ainda bem: seu corpo, por trás das câmeras, do monitor e/ou de jaleco, sempre estará friccionando o mundo das imagens. Se, em sua forma de viver e se relacionar com o mundo, Gabz dançou por gestos ilegíveis, fez questão de reforçar significados e de invadir e inflexionar sistemas que excluem existências como a sua, profetizo (ou melhor, eu prognostico): esta ampliação de ofício será também resposta sobre o que pode Gabrielle no mundo.



¹ Bruna Rafaella Ferrer de Morais. “Pequeníssimo manual para sobreviventes artistas sem obras”. In: O outro é uma queda. (Recife: Cepe, 2018). ² Paul B Preciado. Manifesto contra-sexual. (Lisboa: Orfeu Negro, 2019).

³ Luís Alegre. O que vemos quando vemos? Imagens, poder e perceção na era da inteligência artificial. (Lisboa: Stolen Books, 2025), pp 6–7. Ibid.

É em Pedagogia do oprimido que Paulo Freire formula de modo explícito a noção de “educação bancária”, caracterizando-a como um modelo pedagógico baseado na transferência e no depósito de conhecimentos do educador para os educandos. Paulo Freire. Pedagogia do oprimido. (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987).



 
 
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