top of page

GABZ 404: A CONFUSÃO É PARTE DO MÉTODO 

Guilherme Moraes
17 de jun.
5 min de leitura

Atualizado: 21 de jul.

Colagem composta por dezenas de retratos fotográficos de diferentes tamanhos, organizados de forma sobreposta e irregular, ocupando toda a superfície da imagem. Não há margens nem espaços vazios significativos; as fotografias se encostam e se interceptam, formando um mosaico visual denso.
Predominam retratos de pessoas em enquadramentos fechados e médios, com olhares direcionados à câmera ou desviados para fora dela. As figuras aparecem sozinhas, em diferentes idades, tons de pele, tipos físicos e expressões de gênero, revelando uma ampla diversidade de identidades e corporalidades. Há pessoas magras, gordas, musculosas e idosas; corpos com pelos, tatuagens, cicatrizes e marcas naturais; pessoas trans, travestis, não binárias e de diferentes apresentações de masculinidade e feminilidade.
As roupas variam entre peças íntimas, vestidos, camisetas, tecidos transparentes, figurinos performáticos e momentos de nudez parcial, sempre apresentados como retratos artísticos. Algumas pessoas usam maquiagem intensa, joias, perucas ou acessórios; outras aparecem com aparência cotidiana e despojada. Os cabelos incluem estilos curtos, longos, raspados, cacheados, lisos e grisalhos.
As expressões alternam entre seriedade, introspecção, vulnerabilidade, desafio, melancolia e tranquilidade. Em algumas fotografias, as pessoas estão sentadas sobre camas ou sofás; em outras, em pé diante de janelas, paredes, espelhos ou cenários urbanos. Também há retratos realizados em ambientes domésticos, interiores pouco iluminados, palcos, ruas e paisagens abertas.
A iluminação varia amplamente entre as imagens: algumas apresentam luz natural suave, outras utilizam contrastes fortes, tons quentes, iluminação colorida em vermelho, verde ou azul, e fotografias em preto e branco. Essa diversidade cromática cria um ritmo visual dinâmico, alternando atmosferas íntimas, dramáticas e contemplativas.
O conjunto não estabelece uma narrativa linear. Em vez disso, reúne múltiplas presenças e experiências em um grande painel de retratos, valorizando a singularidade de cada pessoa enquanto evidencia a pluralidade de corpos, identidades, afetos e formas de existir. A composição produz a impressão de um arquivo vivo de encontros, em que cada fotografia mantém sua individualidade e, ao mesmo tempo, contribui para uma representação coletiva da diversidade humana.
Transgeneridade, série 2384

“O artista sem obras atua, em constante estudo e autodesignação, dentro de uma concepção de arte que tende a se perder quando extrapola seus limites, levando a preencher consigo mesmo nosso mundo. Trata-se de uma abordagem de arte, e de artista, que encara e manipula a tensão que engloba o trágico da vida cotidiana e suas potencialidades; que se liga à qualidade do agir humano atento às energias latentes na vida e nas relações sociais nelas imbricadas.” - Bruna Rafaella Ferrer, Pequeníssimo Manual para Sobreviventes Artistas sem Obra.¹ 


O acompanhamento curatorial que realizei com Gabz 404 (Porto Alegre,1991) teve início na transição geográfica em que ele se encontrava, indo da capital gaúcha para São Paulo, na ocasião da Residência Artística da FAAP, em 2025. Artista visual, fotógrafo, pesquisador, escritor e astrólogo, no entrecruzamento de seus interesses, Gabrielle é essencialmente um investigador das imagens.


Toda imagem — seja pintura, fotografia, simulacro algorítmico, design ou anúncio publicitário — é uma faca de dois gumes. Como propõe Paul B. Preciado, tecnologias sempre foram sistemas políticos que garantiram a reprodução de estruturas específicas. Mas, como nos lembra o autor ao evocar Donna Haraway, não há tecnologia intrinsecamente limpa ou suja. Sua natureza é ambivalente: tanto produto de estruturas de poder quanto zona potencial de reinvenção e resistência.²


Na primeira imagem, um homem adulto, de pele clara, cabelos curtos e escuros, bigode fino e tatuagens visíveis nas mãos e no pescoço, está em pé, apoiado na borda de uma mesa expositiva. Veste camiseta marrom de mangas curtas, calça bege e tênis escuros. O ambiente é amplo, de paredes brancas e pé-direito alto, iluminado por uma grande janela coberta por cortina translúcida que difunde a luz natural. Sobre as paredes estão distribuídas pequenas fotografias emolduradas ou fixadas diretamente, enquanto mesas de superfície clara exibem impressões fotográficas, caderno aberto e textos. À direita, um abajur branco ilumina discretamente uma fotografia apoiada na mesa. A postura relaxada do artista sugere contemplação do conjunto da exposição.

O esbarro entre o que há de emancipatório e de destrutivo na imagem faz brilhar os olhos de Gabz. Seu trabalho busca a revulsão de linguagens visuais. Com fotografia, apropriação ou criações sintéticas, ele vai de encontro à apatia da lisura cotidiana que chega às nossas retinas. Gabz 404 costura estranhamento e familiaridade através de percursos imagéticos. Não caminhamos diante deles de forma automática. Seu relevo mutante nos faz claudicar, tropeçar e acordar, ainda que momentaneamente, do transe das imagens fáceis de digerir.   


Eram duas abordagens complementares, ele me disse: a FAAP cedia-lhe o espaço, um apartamento-estúdio no histórico Edifício Lutetia, na Praça do Patriarca, centro da capital paulistana; a Propágulo, remotamente, conferia-lhe interlocução. Acontece que, em determinado momento, uma terceira metade foi ganhando espaço: Gabz passou a cursar pré-vestibular. Ele, que havia se desvinculado da universidade há alguns anos, cruzava a cidade entre um prédio de 1920 e outro construído em 1944, o edifício Gazeta, na Avenida Paulista. Entre o ateliê e a sala de aula, Gabrielle se angustiava: sentia não estar produzindo artisticamente. Suas ideias pareciam se dissolver frente ao tempo imprensado pelas questões de português, matemática ou física.


A partir da imagem, Gabz 404 fricciona a construção de realidade, a fabulação, a preservação da memória e o controle que permeia tal poder. Ser uma pessoa transmasculina posiciona-o diante do mundo, integrando a tônica de seu olhar: no transporte público, nas redes sociais ou no âmbito privado; nos brechós ou nas megastores; nos hospitais e nas salas de aula, no próprio espelho. Da cacofonia, concatena e constrói um arquivo dissidente não apenas em seu conteúdo, mas na maneira monstruosa e delicada através da qual é elaborado.


Fotografia vertical, em cores, realizada em ambiente interno, com atmosfera intimista e teatral. A composição apresenta uma figura humana de corpo inteiro posicionada junto a uma janela, onde a incidência de luz natural atravessa cortinas translúcidas em tons de rosa, criando contrastes intensos entre áreas iluminadas e sombreadas.

À direita da imagem, uma pessoa adulta, de cabeça completamente raspada e pele clara, permanece em pé, com o corpo voltado levemente para a esquerda e o rosto direcionado ao observador. A expressão é neutra e enigmática. A maquiagem cobre quase todo o rosto com tonalidades esverdeadas e ocres, enquanto os olhos recebem pigmentação violeta intensa, conferindo aparência dramática. Pequenas áreas avermelhadas destacam as maçãs do rosto e os lábios aparecem discretamente escurecidos.

O tronco está nu, revelando diversas tatuagens distribuídas pelo peito, pescoço e braços. Entre elas, observam-se inscrições em texto e pequenas ilustrações. Da cintura para baixo, a figura veste uma peça longa de tecido branco, semelhante a uma saia ou pano enrolado ao corpo, que recebe diretamente a luz da janela e torna-se a região mais luminosa da fotografia.

À esquerda, uma ampla janela ocupa boa parte da composição. Cortinas em tecido leve, nas cores branco e rosa, caem em dobras verticais e deixam a luz atravessar parcialmente, produzindo reflexos rosados e azulados sobre o ambiente e sobre o corpo retratado. A parede abaixo da janela é de tijolos pintados de branco, enquanto o restante do espaço apresenta paredes em tom amarelado.

Ao fundo, parcialmente ocultas pela figura, aparecem plantas de folhas largas e objetos domésticos discretos, como uma luminária cilíndrica branca, que contribuem para a sensação de interior habitado. A iluminação quente proveniente do ambiente mistura-se à luz fria da janela, criando um jogo cromático entre amarelos, verdes, rosas e azuis.

A fotografia constrói uma atmosfera de suspensão e introspecção, utilizando a luz, a cor e a presença performática da figura para transformar um ambiente cotidiano em uma cena de forte caráter pictórico e simbólico.
trans queer1

Nas séries Insurgência de Aquário e 2384, o artista atenta para como as ferramentas de IA armazenam dados do inconsciente coletivo vigente, e o quanto esses programas refletem nossos desejos, receios e projeções, como indica Luís Alegre. Enquanto elaboração estatística, eles respondem à incidência de imagens com as quais se alimentam. O resultado é um acervo desequilibrado, outra tecnologia de sustentação de regimes normativos de verdade. Enquanto a fotografia possui alguma função documental, ainda sendo “de algo”, “A imagem gerada por IA, em contraste, separa-se completamente de qualquer ancoragem referencial. À medida que os modelos generativos sintetizam imagens sem referentes no mundo real, a noção de imagem como evidência entra em colapso. Esta mudança representa não apenas uma evolução tecnológica, mas uma rutura epistemológica profunda: a imagem deixa de ser índice de realidade e torna-se uma alucinação estatística”.³


Série Insurgência de aquário

Em março de 2025 aconteceu o ateliê aberto da residência artística na FAAP. Eram ao todo 10 artistas, em sua maioria brasileiros, mas também da Colômbia, da França, de Portugal e do México. No estúdio de número 52, estavam dispostas algumas fotografias na parede e zines no balcão correspondente à cozinha do apartamento. No meio da sala, sobre duas mesas, mais imagens. A rotatividade entre as pessoas que adentravam no loft era intensa: duplas ou trios em quantidade suficiente para que o artista precisasse emendar o fim de uma mediação de seu ateliê com o início de outra. 


Cirurgicamente removido
Cirurgicamente removido

Houve encontros nos quais parte do que Gabz narrava para mim era o vaivém na cidade. Alguns pontos, contudo, chamavam-me a atenção: era, por exemplo, a primeira vez que frequentava banheiros masculinos em um ambiente escolar. O que aquelas cabines e as conversas que vinha de além das suas paredes lhe informavam? Outra questão gritante era a transmissão bancária, como já dizia Freire, de conhecimento, antípoda de sua forma de criar discurso. Se celebra a ambivalência, como defrontar questões de resposta fechada? O momento era de concessões estratégicas em função de um futuro na universidade.



Vestibular prestado. Passaram-se os meses. Em fevereiro de 2026, o resultado: aprovado em medicina. Como fica o artista diante desta notícia? Percebi que eu, curador, tinha muito a aprender com essa situação, pois esperar de um artista íntimo da borda e da instabilidade da linguagem que produza dentro de parâmetros mercadológicos ou institucionais nos quais transito seria violentar sua existência. Ao longo dos acompanhamentos mensais que transcorreram por todo 2025, Gabz 404 me relembrava: faz-se arte para conferir mais densidade ao nosso existir, para “dexistir”, como propõe Bruna Rafaella Ferrer. Toda prática artística, ainda que privada ou bissexta, é válida. Se a contundência do que Gabz propõe é tamanha, e se julgamos que esta deve ser vista, é, no fim das contas, mais um problema que mais nós (eu) precisamos resolver do que propriamente o artista.  


Gabz habita a beira. Por isso tantos modos de ser e fazer colapsam ao falar dele. Por isso, além de artista visual, fotógrafo, pesquisador, escritor e astrólogo, foi vestibulando e, agora, será médico. Um médico informado por um ser artista, saber que contaminará, torço, a estética das relações que com ele serão cultivadas. Em seu caso, ser artista é inescapável, e ainda bem: seu corpo, por trás das câmeras, do monitor e/ou de jaleco, sempre estará friccionando o mundo das imagens. Se, em sua forma de viver e se relacionar com o mundo, Gabz dançou por gestos ilegíveis, fez questão de reforçar significados e de invadir e inflexionar sistemas que excluem existências como a sua, profetizo (ou melhor, eu prognostico): esta ampliação de ofício será também resposta sobre o que pode Gabrielle no mundo.



¹ Bruna Rafaella Ferrer de Morais. “Pequeníssimo manual para sobreviventes artistas sem obras”. In: O outro é uma queda. (Recife: Cepe, 2018). ² Paul B Preciado. Manifesto contra-sexual. (Lisboa: Orfeu Negro, 2019).

³ Luís Alegre. O que vemos quando vemos? Imagens, poder e perceção na era da inteligência artificial. (Lisboa: Stolen Books, 2025), pp 6–7. Ibid.

É em Pedagogia do oprimido que Paulo Freire formula de modo explícito a noção de “educação bancária”, caracterizando-a como um modelo pedagógico baseado na transferência e no depósito de conhecimentos do educador para os educandos. Paulo Freire. Pedagogia do oprimido. (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987).



 
 
bottom of page