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ANA FLÁVIA MARU: LÉXICO MIRMECOLÓGICO

Guilherme Moraes
18 de jun.
6 min de leitura

Atualizado: 21 de jul.


Artistas têm surpreendentes afunilamentos de interesse. Acompanhá-los é deparar-se com pessoas obcecadas. “Obcecado”, do latim obcaecare, significa “tornar cego”, “ofuscar”. Se criar, em grande medida, é cegar-se diante do que está ao nosso redor, não é por um ofuscamento geral do mundo, mas por sua casmurra maneira de vê-lo. Um ou outro encontro em suas vidas geram uma espécie de epifania que se entranha em sua constituição com veemência. Contamina seus olhos, que padecem de um contundente efeito Baader-Meinhof (quando se toma consciência de algo novo e, de repente, começa a percebê-lo em toda parte). Essa pequena porção de tópicos, a caber em uma mão, eventualmente do tamanho de um inseto, por sua vez abre-se num mundaréu a se conhecer, uma dimensão latente que sempre estivera ali, num aguardar silencioso, expandindo-se como um universo do qual agora se tem as chaves.   


Escultura composta por um bloco quadrado de cerâmica em tom terracota, com superfície fosca e marcas irregulares do trabalho manual. No centro há uma abertura retangular vazada, semelhante a uma pequena janela, que atravessa completamente a peça. Sentada sobre a borda inferior da abertura encontra-se uma diminuta figura humana, com aproximadamente um décimo da altura da escultura. A personagem usa chapéu marrom de abas largas, casaco verde-azulado, calças claras e mantém as pernas pendentes para fora do vão. O fundo branco atravessa a abertura, destacando a silhueta da pequena figura e reforçando a sensação de escala entre o corpo diminuto e o bloco maciço.
Detalhe de Sertanejas (2025), Molduras em cerâmica, miniaturas humanas de plástico (esc.1:100), cabeça de formiga saúva, cola e imã. 10 x 10 x 2 cm / Díptico

Esse é o caso de Ana Flávia Maru (GO - 1992). Arquiteta de formação pela Universidade Federal de Goiás, ela nunca foi afeita a um ofício que se instrumentaliza diante de um mercado neoliberal. Se uns clamam por utilidade, ela cultiva seu oposto, fermenta aquilo que uns chamam de progresso num outro tipo de alimento. Ana percebeu que as pessoas se sentavam no centro da cidade, onde morou. O repouso mostrava que aquelas ruas não eram só lugar de passagem ou espaços sujos dos quais se deseja escapulir. É decisão, revela a agência de quem escuta o corpo. Foi aí que se iniciou uma obsessão sobre objetos de sentar, muito pautada também na conversa com pessoas desse entorno. Entre 2017 e 2019, fotografou cadeiras na rua. Sem comportar ninguém, sozinhas, caídas, empilhadas, com sabor de espera. O que elas ensinavam sobre suas respectivas paisagens?


Inventário de tamboretes (2018), Aquarela e nanquim s/ tecido de algodão em bastidor de madeira. 20 cm de diâmetro. Políptico


A artista é nascida em Itumbiara, município com cerca de 110.000 habitantes situado no sul do estado de Goiás. A localidade, limítrofe com o estado de Minas Gerais, posiciona-se a cerca de 204 km de Goiânia e 411 km de Brasília. Imigrante, passou a estudar a história de Goiânia. Olhava para a capital com olhos desconfiados. “Essa cidade planejada da década de 1930 foi uma espécie de ‘teste para Brasília’.” Dessa cisma, surgiram as formigas. 


Maru deparou-se com as saúvas na pesquisa que realizava com o coletivo História Natural de Goyaz. Ela e os demais integrantes do grupo, Octávio Scapin e Henrique Borela, visitavam, desde 2019, arquivos para realizar exercícios de questionamento e reescrita das narrativas urbanísticas hegemônicas da cidade. Acessavam acervos fotográficos de instituições da cidade. Foi na  Fundação Getúlio Vargas, especificamente no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, que ela encontrou um dos disparadores definitivos de sua obra: uma fotografia de 1937 intitulada Máquina de matar formigas “Turbal” e seu inventor Caran Zancul.


Duas esculturas quadradas de cerâmica terracota são apresentadas lado a lado sobre fundo branco.

A peça à esquerda possui uma abertura retangular central onde está posicionada uma pequena figura humana em pé. A personagem veste roupa avermelhada e mantém os braços junto ao corpo, ocupando o centro do vão.

Na peça à direita, a abertura é semelhante, porém a pequena figura está sentada sobre a borda inferior da janela, com as pernas voltadas para fora. Usa chapéu marrom, casaco verde-azulado e calças claras. A superfície das duas esculturas apresenta pequenas imperfeições, relevos e marcas do processo manual de modelagem, reforçando o aspecto artesanal da cerâmica.
Sertanejas (2025), Molduras em cerâmica, miniaturas humanas de plástico (esc.1:100), cabeça de formiga saúva, cola e imã. 10 x 10 x 2 cm / Díptico
Desenho realizado sobre papel claro, combinando texto manuscrito e croqui em grafite.

Na metade superior esquerda lê-se o título "Escuta", sublinhado. Logo abaixo há uma lista numerada com cinco ações escritas à mão, descrevendo etapas de realização da obra. O texto ocupa aproximadamente um terço da folha.

Na metade inferior direita aparece um desenho esquemático de um espaço expositivo visto em perspectiva. No encontro de duas paredes há um pequeno monte de terra no chão. Suspenso acima dele, preso por um fio vertical, encontra-se um objeto cilíndrico revestido por textura semelhante à de um formigueiro ou ninho. À direita, uma haste horizontal sustenta um cabo ou equipamento. À esquerda do desenho há uma câmera instalada sobre tripé voltada para o conjunto central.

O traço é leve e econômico, deixando grandes áreas do papel em branco  e conferindo ao desenho aspecto de anotação de processo e planejamento da instalação.
Desenho da ação para a série Escuta / grafite sobre papel / 21x29 cm.

A partir do impacto, ela começou a investigar como a construção de Goiânia ligava-se à violência e à destruição de seres não-humanos na sua pesquisa de mestrado, Um arquivo às avessas: desaprender Goiânia em companhia multiespécie. Descobriu que a história da saúva com o Brasil e com Goiânia foi uma verdadeira cruzada sanitarista. Desde o período colonial, as cortadeiras foram tidas como pragas agrícolas e inimigas do progresso nacional. A perseguição virou política de Estado com a Campanha Nacional contra tais formicídeos em 1935, num uso massivo de máquinas e venenos na agricultura, ao mesmo tempo em que buscava disciplinar o homem do campo ao reprimir práticas de manejo tradicionais, como a coivara de populações quilombolas. “Ou o Brasil mata a saúva, ou a saúva mata o Brasil” foi o lema que embasou comerciais de inseticidas da época. Em Goiânia, a guerra foi tomada como vital para a construção de uma cidade vista enquanto símbolo de modernidade. O governo de Goiás chegou a publicar decretos concedendo terrenos a Caran Zancul, o inventor retratado na imagem, para que ele instalasse uma fábrica de extintores de formigas na capital. Havia também códigos de posturas urbanas que obrigavam cidadãos a extinguir formigueiros da malha urbana. 


Fotografia horizontal de um espaço expositivo vazio. No centro da imagem, encostado na parede branca, há um espelho retangular de moldura preta apoiado diretamente no piso de cerâmica em tons terrosos, com desenhos geométricos. Refletido no espelho, aparece um microfone de captação de som com protetor de pelos claros, conhecido como “deadcat”, preso a uma haste preta que entra pela lateral direita do reflexo. A composição é minimalista: grande área vazia de parede clara, iluminação suave e foco concentrado no espelho e no dispositivo de escuta, sugerindo atenção ao som e à presença do espaço.
Escuta #2 (2024), Vídeo, cor, som. 2’ | Museu de Arte de Britânia, Goiás. | Colaboração: formigas saúvas e Henrique Borela. Link para acessar: https://vimeo.com/949354667 Senha: sauva

No lugar de aceitar a versão oficial que atrelava a fundação da cidade apenas às ideias desenvolvimentistas, a artista buscava dar visibilidade às histórias de existências as quais tentou-se exterminar, mas que sobreviveram até hoje à edificação de um projeto moderno-colonial. Estes seres leitores da terra e das árvores, a 8,5 milhões de anos ziguezagueando pelo chão, eram, sobretudo, uma forma de resistência. 


Em São Paulo, enquanto era residente no Pivô, em 2022, Ana passou a realizar o que chama de “fazer-com”, organizando experimentos e encontros artísticos para escutar e interagir com esse ser. Um deles foi sua ida a um formigueiro artificial: sem encontrar as saúvas nas calçadas concretadas da capital paulista, foi ao Instituto Biológico, instituição fundada na década de 1920 justamente para ajudar fazendeiros contra pragas. Da vidraça, estudava a intimidade da colônia, numa corrida de revezamento ininterrupta, praticada há mais de uma década por uma legião de Saúvas Limão. Havia uma engenharia social secreta que a fascinava. As pequenas agricultoras a orquestrar o cultivo de fungos, seu alimento naquelas câmaras alveoladas.


Registro do Ateliê feito durante o Pivô Campo Aberto - abertura para visitação pública dos ateliês - Julho de 2022


A Imagem Cambaleante foi um dos resultados dessa pesquisa. Ana recolheu folhas de um pé de manga que ficava sobre um sauveiro em Goiânia. Usando uma técnica fitotípica, revelou fotografias usando a degradação da clorofila gerada pela luz do sol, estampando no tecido vegetal a foto da máquina de matar formigas e seu criador. Então ofereceu essas folhas ao formigueiro artificial. 


Em primeiro plano, sobre o chão de uma área de mata, uma folha seca ocupa o centro da composição. A folha, em tom verde-oliva amarelado, apresenta sinais de desgaste, com uma grande porção ausente na borda inferior direita, formando um recorte semicircular característico da alimentação de insetos. Nervuras delicadas atravessam sua superfície.

Projetada ou impressa de forma tênue sobre a folha, percebe-se a imagem esmaecida de um retrato antigo em preto e branco. A figura humana aparece parcialmente visível, com o rosto voltado para a frente e usando um chapéu de abas largas. A imagem encontra-se difusa, integrada à textura da folha, como uma memória que emerge e desaparece na matéria vegetal.

Três formigas caminham sobre a superfície da folha. Uma delas ocupa a região central direita, destacando-se pelo corpo escuro e por uma estrutura clara, alongada, presa ao abdômen. Outra percorre a borda superior e uma terceira aproxima-se da extremidade inferior. A presença dos insetos introduz movimento em contraste com a imobilidade da folha e do retrato.

Ao redor, o solo é coberto por folhas secas, pequenos galhos, fragmentos de casca e matéria orgânica em decomposição. À direita, um pedaço escuro de madeira ocupa parte da borda da imagem. A iluminação é baixa e concentrada, criando uma atmosfera intimista e silenciosa, com predominância de tons terrosos, verdes escurecidos e marrons.

A composição aproxima elementos naturais e vestígios da presença humana, sugerindo relações entre memória, passagem do tempo e os processos contínuos de transformação da matéria na floresta.

As saúvas são especialistas em trincar, picar e modificar seu ambiente. Tudo começa pelas suas mandíbulas, apêndices usados para o transporte de alimentos, construção de ninhos e defesa. Em Palavras Mordidas, Maru passou a recolher as sobras de folhas cortadas pelas formigas nas ruas de Goiânia e desenhou seus formatos e ranhuras no papel. A artista fabula o desenho deixado pelos dentes da saúva nas folhas como uma misteriosa escrita. As formigas oferecem-lhe uma gramática infindável, registrada em 50 desenhos.


Palavras Mordidas (2025), risografia sobre papel


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Já em Império das formigas, valendo-se de uma foto aérea da construção da capital, a artista, junto ao coletivo História Natural de Goyaz, usou dezenas de carimbos manuais reproduzindo uma infestação de saúvas gigantes sobre o traçado retilíneo de Goiânia. E se, do lugar de pragas vitimadas pelos decretos públicos, mas agindo coletivamente numa correição capaz de devolver a destruição que lhes foi imposta para a arquitetura erguida sobre o território que lhes foi usurpado?



Exposição "Não há terra sem saúvas" (2023). Coletivo História Natural de Goyaz / Ana Flávia Marú, Henrique Borela, Octávio Scapin. Curadoria: Cacá Fonseca. Galeria da FAV / Goiânia / Goiás


Em sua poética, Ana Flávia Maru destina atenção àquilo que recorrentemente escapa ao olhar transeunte, atarefado, rotineiro. Seu interesse — voyeurista, contemplativo, atento, indignado — informa sua maneira de caminhar. É possível imaginar que no verso do Brasil funcione um imenso formigueiro. Seguindo os carreiros das formigas, que chamam-lhe com sua canção operária, chegando perto das frestas de onde erodem o cimento e o piche, a artista imagina: há, abaixo, um outro continente. Por ele, elas andam, com suas antenas cotoveladas, sem mapa algum. Percorrem túneis que conectam diversas câmaras. Numa, a rainha põe os ovos. Noutra, está o berçário. Acima, fica o jardim de fungos. A colônia, no seu existir presentificado, simplesmente sabe. Está escrito nas folhas mordidas, dito no estalar de suas mandíbulas, em cada ovo e a cada nova rainha que assume o posto de sua antecessora: as saúvas são 200 vezes mais antigas que a humanidade. Com suas traquitanas, podem ter destruído tantas, tantas delas. Mas estima-se que, hoje, em nosso mundo ainda haja 20 quatrilhões de formigas. Destas, centenas de trilhões são saúvas. O homem colonialista, o delírio da modernidade, são como algo que cai e esmaga parte de suas fileiras expedicionárias na crosta terrestre. Desordena-as, mas logo depois elas aprendem a contorná-lo. Houve formigas antes das cidades. Também haverá depois.



 
 
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