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As bananeiras-imagem e os mangarás de Nydia Negromonte

  • Mariana Leme
  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 21 horas


1.

Campos cromáticos em guache sobre papel se unem em diversas composições e tomam a forma do mangará, a inflorescência roxa que brota na ponta dos cachos de bananas, também conhecida como “coração” ou “umbigo” da bananeira. Nydia Negromonte iniciou a série de desenhos-pinturas Mangará em 2025 e, como ocorre em outras de suas obras, está em processo (até que a artista decida encerrá-la). 


Mangará, guache sobre papel, 2026, foto: Bianca Aun.
Mangará, guache sobre papel, 2026, foto: Bianca Aun.

Cada um dos Mangarás é feito na vertical, proporção historicamente associada à produção de retratos, ao contrário da horizontalidade típica de paisagens e naturezas-mortas. Não por acaso, tem-se a impressão de que cada desenho representa um indivíduo particular, o que se dá também por meio da combinação de cores, formas, contrastes, cortes e composições, tão variada quanto a quantidade de trabalhos produzidos. 


Negromonte não procura esmiuçar as características da planta, tal qual num desenho naturalista, mas apresentar os mangarás em sua singularidade, ao mesmo tempo que formam um imenso conjunto. Às vezes, eles são facilmente reconhecíveis; em outros casos, parecem formar imagens independentes da realidade concreta. É como se a artista invertesse a imagem idealizada — e muitas vezes mobilizada politicamente — da bananeira: em algumas pinturas, Negromonte baseia-se na planta para, em seguida, abandonar a referência, transformando o trabalho em campo autônomo, no qual interessam as relações cromáticas, os contrastes e os contornos, que são ao mesmo tempo instáveis e bem marcados.


Mangarás, guache sobre papel, 2026, foto: Bianca Aun.

Parte dessa “autonomia” advém dos ângulos pelos quais Negromonte observa as plantas: quanto menos frontais (considerando um ser humano e um pé de bananeira adultos), menos reconhecível se torna a imagem do objeto observado. Alguns enquadramentos na composição também contribuem para que a ênfase recaia no desenho e em suas dinâmicas internas, para além do tema. 

Mas a banana e a bananeira têm uma presença marcante na cultura visual do Ocidente; é raro não reconhecê-las. Na verdade, desenhos, gravuras, pinturas e fotografias da planta foram tantas vezes mobilizadas que acabaram por constituir uma espécie de imaginário comum, típico das Américas — embora seja nativa do continente Asiático. E, como acontece frequentemente com tais imagens, elas constituem o eixo central de enunciados em disputa, sobretudo em sociedades marcadas por assimetrias, sem contar as (re)ações de diversas naturezas que buscam fazer frente à precariedade imposta. 


Uma das estratégias é o plantio de alimentos nos quintais, nos quais a bananeira é muito presente. Ao contrário da “bananeira simbólica”, as cultivadas são aliadas preciosas na garantia de segurança alimentar das pessoas, tanto pelo valor nutritivo da fruta e do “umbigo”, quanto por seu rápido crescimento. A diversidade de Mangarás de Nydia Negromonte talvez seja ainda mais interessante por isso: ela reflete a realidade viva dos cultivos, sem que se deixem capturar como representação de algo que lhes é externo. 


Algo semelhante aconteceu com o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss. Entre 1935 e 1938, ele esteve na cidade de São Paulo, onde alugou um “palacete pintado de ocre, no estilo romano dos anos 1900”.¹ Decepcionado, pediu ao proprietário que plantasse uma bananeira no jardim dos fundos, imaginando que, ao ver a planta, estaria convencido “de estar nos trópicos”. 


Mangará, guache sobre papel, 2026, foto: Bianca Aun.
Mangará, guache sobre papel, 2026, foto: Bianca Aun.

Nas fotos que fez de sua casa e da vizinhança, as construções têm inspiração europeia e a vegetação dos jardins é controlada. No entanto, a “bananeira simbólica” de Lévi-Strauss, que deveria funcionar como imagem tropical, também se impôs como ser vivo, transformando-se “numa pequena floresta onde eu fazia minha colheita”. É como se a imagem da bananeira tivesse se diluído, fazendo com que a bananeira real voltasse a assumir seu lugar no ecossistema — oferecendo, inclusive, um dos alimentos mais apreciados ao redor do planeta.




2.

Do elogio à abundância da natureza, passando pelo exotismo para consumo europeu, à depreciativa expressão das “repúblicas bananeiras”, a planta foi (como mencionado acima) registrada em pinturas, aquarelas, gravuras e fotografias de viajantes. Além disso, compôs o sumário figurino para as apresentações de Josephine Baker em Paris e emprestou seu nome às antigas colônias — sobretudo da América Central —, cuja população viveu, durante grande parte do século XX, sob regimes autocráticos. Não por acaso, ditadores locais foram amplamente apoiados pela multinacional de plantations United Fruit Co., sediada nos Estados Unidos, cujo “modelo de negócios” se baseia na exaustão da terra (alheia) e dos trabalhadores, responsáveis pelo manejo extensivo das frutas. 


Musa Paradisiaca (Bananeira), 1866, Georges Leuzinger, Acervo Instituto Moreira Salles
Musa Paradisiaca (Bananeira), 1866, Georges Leuzinger, Acervo Instituto Moreira Salles

Por volta de 1866, o suíço Georges Leuzinger, que viria a falecer no Rio de Janeiro, fotografou a Musa paradisiaca (vulgo Bananier) como se fizesse um retrato de corpo inteiro, destacando-a em meio a outras plantas. Algumas décadas antes, o artista britânico Charles Landseer havia registrado a bananeira num estudo em aquarela, típico desenho naturalista destinado ao conhecimento europeu sobre as terras distantes que desejavam explorar. À direita do papel há alguns pés que nascem da “planta-mãe” subterrânea; à esquerda, três mangarás vistos em detalhe.  






Bananeiras 1825 - 1826, Charles Landseer, Acervo Instituto Moreira Salles.
Bananeiras 1825 - 1826, Charles Landseer, Acervo Instituto Moreira Salles.

Jean-Baptiste Debret, artista francês muito conhecido por suas cenas de tortura no Brasil do século XIX, retratou uma mulher carregando um feixe de folhas de bananeira, provavelmente a caminho do mercado. Ela sorri discretamente; orgulhosa, talvez, de ter conseguido uma relativa autonomia, nas brechas do sistema escravista: as grandes folhas recém-colhidas representam a possibilidade de viver segundo os próprios interesses.


3. 

Marchande de Feuilles de Bananiers, 1825 - 1826, Jean Baptiste Debret, Acervo Instituto Moreira Salles.
Marchande de Feuilles de Bananiers, 1825 - 1826, Jean Baptiste Debret, Acervo Instituto Moreira Salles.

Tal como a bananeira, de cujo caule subterrâneo despontam as plantas, Mangará parece ser mais um dos frutos, agora visíveis, que resultam de anos de trabalho de Nydia Negromonte. Para citar uma aproximação formal e temática, em 2018 a artista desenvolveu a série Deshijado — literalmente “desfiliado”; alguém de quem foram retirados os filhos —, baseada na técnica do desbaste da bananeira. 


Os desenhos são formados a partir de traços finos em grafite, e são em parte preenchidos por guache ou pela colagem de papéis coloridos, fazendo com que o branco do papel, que ocupa grandes áreas, assuma uma qualidade atmosférica. Mais que isso: os trabalhos de Deshijado aludem aos processos de vida e de sua retenção na memória, nos quais a escolha é fundamental — seja ela feita conscientemente pelas pessoas ou por seus mecanismos psíquicos de lembrança.


Segundo a artista e curadora peruana Andrea Elera, 


O desbaste da bananeira é uma prática de cultivo utilizada para assegurar a produtividade das plantações de banana em várias regiões [...]. Com o crescimento das novas raízes da árvore e a chegada à superfície, a pessoa encarregada do cultivo realiza uma seleção das ramas — as “filhas” — com maior possibilidade de crescer e dar frutos. Aquelas que não cumprem os requisitos para assegurar uma ótima colheita são eliminadas a partir do corte da gema do crescimento, evitando que ela nasça novamente. [...] Esse mecanismo de seleção, mais do que a produção de banana, poderia ser semelhante a outros processos mais ligados ao nosso trabalho diário. Nossa mente se encarrega, com o passar do tempo, consciente e inconscientemente, de eleger quais experiências devem ser mantidas e quais devem ser deixadas para trás; é uma seleção que implica também um processo de descarte.²

Ao lidar — metafórica e literalmente — com hortaliças e técnicas de cultivo, ao longo de mais de 30 anos, Nydia Negromonte vem construindo um corpo de trabalho que entrelaça mecanismos de memória, objetos cotidianos, sistemas alimentares e as interações entre as mais diversas matérias que compõem o mundo. Talvez seja possível dizer que a artista opera como se fosse uma agricultora de produção artesanal, profundamente interessada em seus plantios — que demandam um tempo alargado e se desdobram em instalações, pinturas, desenhos, fotomontagens, objetos, colagens, festas de aniversário, “gatos” de sistemas de água, produção de sucos e marmitas, fotografias etc. 


Mangará, 2026, foto: Bianca Aun.
Mangará, 2026, foto: Bianca Aun.

Ultimamente, os frutos colhidos pela artista — e que vão além de sua condição de imagem — têm sido oferecidos pelas bananeiras e seus mangarás. Não é difícil imaginar que cada um dos “indivíduos” seguirá sua existência particular, a depender do contexto em que forem armazenados, expostos e observados. Ao mesmo tempo, Mangará mantém sua natureza de conjunto, o que extrapola e dá sentido às singularidades.  


Mangará, guache sobre papel, 2026, foto: Bianca Aun.
Mangará, guache sobre papel, 2026, foto: Bianca Aun.

¹ Todas as citações estão em: LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 105. Tradução de Rosa Freire D’Aguiar.

² “Seleção de coisas”, texto para a exposição Nydia Negromonte: Lección de Cosas (2004-2018), Sala Luis Miró Quesada Garland, Lima, Peru, 2018. Curadoria de Andrea Elera e Jorge Villacorta.

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