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Pela primeira vez, a Propágulo atenta para a produção de imagens de um autor de outro tempo: em Wilson, o fotógrafo ímpar, mergulhamos em Wilson Carneiro da Cunha (1919–1986), cuja atividade se situa entre 1940 e 1980. Compulsivo pelo clique, por décadas pôde ser encontrado em seu célebre Kiosque no centro do Recife. Cobrindo com sua Rolleiflex de eventos sociais a registros domésticos, flanou entre o ensaio e a fotorreportagem e se tornou um dos personagens a comporem a mística das ruas da cidade. Expansivo e excêntrico, fez da fotografia o sustento de si, sua esposa e seus cinco filhos. O texto foi elaborado a partir de entrevista com Bia Lima, sua neta, então debruçada sobre o acervo da família.

 

Quando Wilson tinha 55 anos, nasceu Marilia Vieira (1974). Ainda era Ditadura Militar no Brasil, começada há uma década, e que se estenderia até 1985, um ano antes da morte do fotógrafo. Aos 26, Marilia, jovem arquiteta, casou. Seu agora marido seria transferido para Nova York, e a união civil facilitaria no processo de imigração para os Estados Unidos. Nove anos depois, com o nascimento do primeiro filho do casal, passou a trabalhar nos afazeres domésticos no período inicial de vida da criança. Posteriormente, começou a estudar fotografia e sentiu que poderia contar histórias através da imagem. Mãe de dois meninos, daria de cara com o covid-19 e a cidade de Nova York seria resumida ao apartamento dividido por sua família de quatro pessoas. Naquele contexto, teve a certeza de que a fotografia seria o caminho possível. O que ela, brasileira, imigrante e mãe, revolveria das suas entranhas a partir da imagem? Em Visões fragmentárias do familiar, encontramos o resultado da fermentação, da abnegação, da fúria e do amor cotidianos na produção da Marilia fotógrafa, aos 46 anos de idade. 

 

Em Sonhar uma mesma eternidade, somos apresentados à trajetória de JEAN (1996), que tinha cinco anos quando Marilia emigrou do Brasil. Adolescer costuma ser um processo agridoce para pessoas LGBTQIAPN+. Não é raro que nem a rua nem o lar pareçam, a princípio, seguros para os corpos interseccionados por tais demarcadores. A festa passou a ser ponto de encontro de uma geração de jovens que forjavam na noite, e uns nos outros, a alternativa do pertencimento. A partir de 2016, JEAN passou a registrar um Recife, sobretudo trans e negro, que efervescia na madrugada através de uma pequena e potente coletividade prestes a se tornar  uma significativa cena de música eletrônica underground para esta geração. JEAN foi um dos responsáveis pelo registro histórico — e também inventivo — de momentos de exercício de liberdade daquilo que aponta como sendo uma grande família. 

 

Naywá Moura (2001) tinha por volta dos 14 anos quando JEAN fotografou sua primeira festa, e 18 quando se mudou de Oeiras (PI) para Recife. Em Sabá do Sertão: uma história impossível, entramos em contato com a investigação da artista sobre um suposto caso de bruxaria documentado por um padre em 1758 em sua cidade, no qual afirma que mulheres exerciam a sexualidade de forma transgressora. Através de sua produção fotográfica, Naywá tece uma escrita com e contra o próprio arquivo que pesquisa, transmutando a escassez de dados em opacidade para fabular a história das referidas mulheres.  

 

No que consiste o ambiente doméstico, a família, a rua e a cidade através da ótica de cada autor aqui reunido? Como o que os circunda é metabolizado em suas pesquisas e de que forma estas afetam, simultaneamente, esses respectivos entornos?

REVISTA PROPÁGULO 09

R$ 40,00Preço
  • EDITOR
    Guilherme Moraes

    EDITOR ADJUNTO
    Rod Souza Leão 

    ASSISTENTES EDITORIAIS 
    Elizabeth Bandeira
    Heitor Moreira
    Manoela Freire

    REDAÇÃO
    Guilherme Moraes
    Elizabeth Bandeira

    DIREÇÃO DE ARTE
    Guilherme Moraes
    Heitor Moreira
    Rod Souza Leão

    PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO
    Estúdio Ligatura (Heitor Moreira e Rod Souza Leão)

    CAPA E QUARTA CAPA
    Wilson Carneiro da Cunha

    GESTÃO E COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO
    Rod Souza Leão

    PRODUÇÃO EXECUTIVA
    Bruna Pedrosa

    ASSISTENTE DE PRODUÇÃO
    Manoela Freire

    PRODUÇÃO GRÁFICA
    Heitor Moreira

    COMUNICAÇÃO E REDES SOCIAIS
    Elizabeth Bandeira
    Rod Souza Leão

    DESIGN DIGITAL
    Rod Souza Leão

    REVISÃO
    Guilherme Moraes
    Elizabeth Bandeira
    Heitor Moreira
    Manoela Freire
    Rod Souza Leão

    COLABORADORES
    JEAN
    Marilia Vieira
    Naywá Moura
    Bia Lima

  • Título: Propágulo 09
    Mês e ano de lançamento: Junho de 2024
    Páginas: 64 páginas
    Formato: 18x25,5 cm
    ISSN: 2596-2213
    Idioma: Português

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